Bubuia ruabarrosdequeirosqueirosdebarrosrua

Não foi aprender que estive neste último ano. Foi saborear. É a palavra mais perto do que estou a fazer, saborear, como a aquela mão me disse à uns meses, ela disse-me saborear a vida, o café, a finesa da porcelana da minha caneca, o pêlo do meu gato no toque. O perfume dos cabelos de uma mulher e o intercalar da sombra e do sol na passagem entre ruas. Saborear o atravessar, outra palavra que me vai fazendo sentido, caminhar com todos os ossos e não só com o dedinho dos pés. Aquela travessia que vai da ruabarrosdequeirosqueirosdebarrosrua está a começar, mas saboreando vou começando o que lá está numa coisa que parece magnética e me sustenta, e eu sustento, na consideração da genuinidade do que está a ser feito. É só andar? É andar! dançando o sabor desse andar que é andar parado, parado andando, no desembocar dos dois lagos de argentegentear. Tão perto da piedade, que enche as minhas conclusões sobre a vida e morte, na procura de significações, e matéria de existir. Porém, saboreio que existo não na conclusão, mas num certo choro que me invade os olhos, que tem essa vontade de aparecer, e sinto-me existente. Rodopiar para o lado direito é outra persistência, a perna esquerda abre-se para esse lado, e a criança loirinha deita-se no chão e acompanha esse ar que move a rua. Senhor Carlos, quem somos? Parecemos não ligados, não cúmplices. Existe um acolher. Um sim senhor pode estar aí. Posso estar aqui? Posso ficar? O ar na rua é musical, dois compassos de Bach, a Bubuia da Céu. Telinta a cauda-gato-fita de Sto. António presa a um fio, e o vestido africano verde e laranja, vai aparecendo em várias cores, musicando com passos, e formas tão diferentes, que se semelham na massa gelatinosa de ar compassada com o deslize de saltos e ténis, saias ventosas, peles secas e escuras, a alturas e baixezas, rudezas e subtilezas. Anita! Lá está em sua casa, um degrau ou banco. Com cores rosa ou laranja, que se destacam da escuridão dos outros tecidos. Não quero alterar, rasgar o espaço para presença imposta. Quero saborear estar. Ficar como me disse a mesma mão.
O cabelo cresce, cai, é questionado sobre tamanho. O cabelo que anos se manteve perto do coro cabeludo e uma tesoura movimentada por tantas vontades seculares, infinitas, só o deixava numa forma. Vou deixá-lo invadir o espaço. Balançar no ar. Ele terá de ser presente, terá de ter força para atravessar ar que desconhece. Pois durante anos não ultrapassou a ponta do nariz, e está quase a chegar ao lábio superior. As pontas não sabem para onde vão, pois estão tão longe da raiz, mas avançam sem saber, saboreiam a bubuia, como diz a céu.
o pedras’12 vai sendo no meu corpo, como a fia, mas não só num corpo carne, ossos, água. Um corpo seiva de árvore, musgo, fungo, semente, olhos de gato, aventura de cavalo, sorriso de mar, crosta de melancia, riso de avó, comida no chão, galinha do livro, roda da paz, pêlo de mosca, lenço empacotado, café da manhã… grato me banho, em corpo que adensa co-existindo com a liberdade da mão que me disse o olhar do sabor.

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.