e entretanto o mercado dança

a dona piedade continua sózinha se não formos lá e precisava de uma torneira de água quente mas afinal os tantos projectos para a mouraria acabaram por não conseguir ainda pôr a funcionar uma das coisas que fazia parte mesmo do início das discussões:um conjunto de pessoas que se dispusessem a ir fazendo pequenos arranjos nestas casas que cada vez mais olham para ruas embonitadas e para as novas escadarias mas que por dentro continuam a cair aos bocadinhos albergando gente meio perplexa com tanta animação pela mouraria e tão pouco trabalho estruturante.
sinto que muitas destas pessoas que se dedicam à concretização destas ideias para o bairro estão mesmo trabalhando “por bem” mas vou perdendo a vontade de estar por perto à medida que oiço ideias e mais ideias que “auscultam”quem por cá anda essencialmente para vir a aplicar fórmulas que parecem resultar no papel….sonhos em abstrato…os jovens, os idosos, as prostitutas, os sem abrigo….salvar os abstratos deste mundo doente sem considerar que é a abstratização que traz o virus…o que é que os jovens querem fazer??? quais jovens???os que são encostados às paredes para mostrar documentos dia sim dia sim? ontem em conversa apareceu como se fosse uma grande invenção a palavra “respeito”—-não se trata de submissão. de vassalagem, de reconhecimento de territórios—parece-me que se trata antes de parar de pintar cascas às pessoas e aos lugares—-respeito é ir ouvindo o acontecer de estar vivo, não identificar linhas gerais, cristalizar/categorizar e depois construir ações descoladas, gordas de boas intenções e ausentes de capacidade de escuta…
entretanto o mercado dança e os lados ali da rua da boavista piscam o olho a cada umaum de nós—-querida mouraria, não vou abandonar os micro-movimentos que criámos juntos—-mas o tempo de estar para nada encontra-se tingido de uma velocidade que não me deixa “nadar”
a lídia da travessa do cotovelo veio esta semana ao cem, quando voltam à mercearia? quando continuamos a alegria que começámos? é já para a semana querida lídia, é já a partir de outubro….só precisámos um tempinho para sentir o recolhimento do organismo pedras12 para que esse ser-pedras13 possa nascer como for, sem arrasto, sem heranças, sem carregar coisas que não ele—-mas ouvindo o caminho que se vai abrindo neste 8º ano de escuta de lisboa—lisboa—-lisboa——–não sei o que sejas, lisboa, mas és muito aventanada—-assim se possa ir ouvindo esse tilintar de selvajaria por entre as camadas de cosmética que te pintam—-estamos aqui, no tal aqui que não é fixo, trabalhamos assim, o tal assim que se cai criando—no olho do ciclone
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.