lisboa desde o olho do vento

volto a lisboa pelo alto da ponte depois de dias selvagens só mar e lagoa e flamingos e silêncio e vento e corpo descalço sem precisar de nada, só ser. lisboa pisca-me o olho deitada para dentro do rio. é um sossego vê-la assim mais luz e sombra e brilho. mesmo que torcida pelas colinas não se esquece de ser água e pó. aprendo de novo a ver o espaço entre as convulsões que os humanos fabricam para se armadilharem de faltas e angústias.é onde mora o sorriso.sem ontem nem hoje nem nunca.
ainda há bocado os flamingos passavam a voar a 2 ou a 3, davam a volta à lagoa e voltavam para trás. ficam mais rosados de asas abertas. agora não os vejo. continua muito vento. fui passear ao mar e voltei pelo areal que vai dar à lagoa. voou-me o chapéu de palha e fugiu correndo em roda fina e eu a correr atrás dele pela planície.andei até encontrar um lugar onde pudesse estar comigo e vim parar aqui outra vez, resguardada da ventania. sinto os apertos do ano pela boca, pela cabeça, e vou sonhando que me liberto disto existindo, só quero aninhar e não me mexer. passa um barco a remos, move-se devagar, dá agora uma volta e desaparece atrás de uma ilha de juncos.entrelaçam-se os vermelhos dos telhados com as copas redondas das árvores, deslizam as pétalas esbranquiçadas rente à areia também esbranquiçada, mas nessa dança de confundir, de entrar e sair uns nos outros, de não resgatar recortes e territórios, cada desenho sobressai da mancha de fundo que nunca foi mancha nem fundo. é como se o silêncio do final da tarde envolvesse cada folha, cada pássaro, cada grão, cada ondulação, como uma membrana que não existe mas que aconchega cada forma de vida na sua pertinência de ser. caminho agora no espirro da velha, no martelar da madeira e não vejo nem velha nem martelo, é um segredo do som a brincar com o perto e o longe. sinto as barcas abandonadas aninhadas nos recantos da água mas também não as vejo como não vejo as cabras castanhas que oiço gritar de vez em quando. a flor vermelha mergulha no tanque, duas garças brancas passam rasantes à água. rodopiam sem pressa, as andorinhas namoram em nuvens. não acontece nada, nem para trás nem para a frente, o tempo não passa, está.
rosmaninho, tomilho, ondas de perfume atravessam o vento e o meu lenço verde mal toca na pele. estou aqui hoje e estou aqui ontem, o sr. antónio pode contar-me histórias de redes e de pescarias e da força de querer ler com o livro de escola do neto sobre os joelhos, a cadela xica esconde-se atrás de coisa nenhuma. os flamingos vão para áfrica. quando poiso a caneta e o joelho escorrega no caderno isso torna-se um acontecimento também. viajo aqui sentada com as pernas cheias de ter andado e dançado e nadado. chegar ao sol nascente à praia acontece agora também. caminho sem roupa por onde não há pegadas de gente, só patas de gaivota ou de corvo. o mar sem fúria nem verde nem azul.ás vezes caminho e volto onde estava e quando percorro o areal de novo vou lado a lado com os meus próprios pés. sinto que a pele já é roupa a mais. vou-me transparentado, a brotar sem rasgar.
agora lisboa no chão de madeira janela aberta, o andré dormindo a gata à espera que o sol lhe chegue. estou aqui e ainda estou ali. lisboa disfarçada de velocidades impostas conta-me do seu tempo de ser terra mágica onde as águas e os ventos se cruzam. onde pode nascer o que for. onde nada acontece e tudo é acontecimento. antevejo que dentro de umas horas seja mais dificil ouvir a tal membrana que não existe aconchegando cada vibração, mas neste momento está aqui e tenho vontade de rir.
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.