esta é a história da carne com osso na garganta que lhe deu a voz de nojo

tenho estado com ela sempre de fugida este ano, anda sem dentes e já não se arranja toda bonita como no ano passado, o marido está cada vez pior, ela só vem ao centro de dia buscar a comida e volta para casa, não tem paciência nem alegria para conversas. tinha-me pedido para escrever a história da sua vida e escrevemos juntas alguns capítulos que não posso partilhar sem a sua companhia, mas esta história ela sempre contou aos quatro ventos e aqui vai, seguidinha sem parar para respirar, como ela fazia:
Então ele disse para eu ver se a carne estava assada e eu não tinha posto os dentes e cortei um quadrado só para ver pouco mais ou menos se estava assada e digo assim”OH Sandro, a carne ainda esta muito dura!” eu não esperava e ele dá-me um berro por detrás das costas, que ele é muito agressivo, e eu aspirei de susto. Assustei-me e em vez de mandar fora para o chão aspirei para dentro. Ele lá me bateu nas costas, apertou-me a cintura à frente (já tinha ouvido dizer que apertando assim pode saltar o engasgo)
Eu vendo que não saía deitei a correr para a esquadra da Mouraria e pedi a ambulância. A minha sorte foi que a carne ficou de lado. Chegando ao hospital o médico disse-me para eu andar no corredor para trás e para diante e ir beber uma coca-cola….mas eu nem tinha dinheiro, só queria que me curassem…
O médico foi comprar a coca-cola mas nem um pingo me entrava….diz o médico”bem, parece que tem que ir para os Capuchos” e lá fui numa ambulância com outra senhora que também se tinha engasgado com uma carne.
Só que aquilo não saia nem por nada. o médico então disse que eu tinha que ser operada de urgência. Mas eu disse”deixe lá! Não quero ser operada, internem o meu marido num lar e deixem-me morrer descansada que eu já tenho a minha vida” isto foi há 3 anos.
Só que o médico telefonou para a América do Sul para a minha filha para saber o que fazer comigo, o meu neto é que lhe deu o número. Contou-lhe o problema e ela disse ”não deixem morrer a minha mãe que ela foi tão boa para mim, criou-me 4 filhos, não a deixem morrer”
Os médicos vieram dizer-me para assinar o papel para a operação que a minha filha não queria que eu morresse. Eu não queria mas ele pegou-me na mão e fez-me fazer um gatafunho: “pronto! Já está!” -disse ele.
Lá fui operada então. Quando acordei estava numa parte de uma enfermaria sozinha. Tinha uma enfermeira pequenina muito bonita, moreninha com os olhos muito pretos, ela dizia assim com muita calma”não se mexa, não se mexa que vou pô-la mais para cima” era o meu anjinho. Disse-lhe que lhe havia de oferecer um Cristo que eu tinha feito em papel que parecia mesmo um Cristo de compra. O meu marido tinha feito a cruz com um degrauzinho para subir para a cruz. Tinha o sanguinho a correr e tudo.
Acabei por não lhe dar porque quando cheguei a casa um hospede tinha roubado as pinturas melhores que eu tinha: tinha o Hitler fardado e tudo que tirei de uma revista com ar de mau, uma caravela….foi até à cómoda que eu lá tinha com bijutarias, relógios de pulso e levou-me tudo o que encontrou.
Quando me estavam a operar a carne escapou para o pulmão. E ainda aqui anda a passear.

assim se acaba a história, obrigada
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.