solidão acompanhada

escutar implica caminhar na atenção. se eu puder caminhar sem fazer meu o caminho—–sem me apropriar—-. se eu puder largar sem abandonar—-sem colapsar—. chegar-deixar chegar, talvez para alguns de nós seja mais ajustado dizer deixar chegar-chegar. onde escuto esse deixar? onde construo as barreiras? será que posso ver esse corte? e quando o vejo será que posso ampliar-me e considerar-me para além dele? quando me deparo com uma situação que me aflige-assusta-oprime-descocerta, uma situação que me desafina, será que posso continuar a acreditar na minha infinitude? esse corpo não fixo, não fixado, vê-se reduzido a um lugar de fricção, de estilhaço. e agora? desapareço? deixo de existir? fixo o corpo num lugar? o corpo que não está em lugar nenhum
caminhar lado a lado potencia o ressoar do acorde que só este lado a lado cria. a afinação do acorde abre a possibilidade de ver com limpidez a afinação de mim, mas se me movo na direcção do acorde, do ressoar que só se configura contigo, para que a minha própria afinação se apure—-já estou a reduzir o encontro a um fim e o encontro não tem fim, nem princípio. não é justo emoldurá-lo assim, não é justo e destrói.
às vezes consigo justificar os meus erros alegando que estou cansada, que trabalho demais, que estou em sofrimento, que sou vítima de injustiças—–desisto de escutar, desisto da exigência da afinação de mim própria—-outras vezes encho-me tanto de aceleração que se torna impossível lado-a-ladar comigo mesma.
este ano tem-me parecido mais clara a solidão acompanhada. a afinação que se cria sem si própria, a urgência de não desistir de me criar em mim mesma e de como isso abre a escuta ao possível acorde que se produz lado a lado, sem prender o outro na necessidade de me aproximar do meu próprio passo e sem me impermeabilizar-isolar na necessidade de apurar a trepidação que vou sendo .
a solidão acompanhada aparece então como a vibração de escutar o acontecer entre. entre chegar-deixar chegar, entre célula e matriz, entre uma membrana e outra, mas também entre o desconhecido e o desconhecido. a afinação não é mensurável, pelo menos não com um dispositivo que a fixe. quando duchamp pergunta como fixámos o metro densifica a pergunta das coisas fixas.
quando a dança me pergunta onde escuto autonomia-suporte, suporte-autonomia eu vejo a fixação de ideias, de conceitos, até à própria destruição daquilo que os trouxe ao visível.
quando alguém que se dedica à investigação do gesto que emerge no encontro com uma rua, com uma esquina, com uma praça, me diz que se sente muito sozinha, que precisa da minha presença naquele lugar para ver chegar a dança eu vejo o rigor de não a salvar dessa solidão, a importância de atravessar em si mesma a escuta desse encontro que se faz gesto—assim já posso estar ali sentada num degrau acompanhando o acontecimento—assim que essa solidão não se faz isolamento, assim que essa solidão se vê no rigor do acompanhamento, assim que essa solidão se vê no potenciar do acorde—-aí já me parece justo o lado a lado—sem necessidade—-sem posse—-sem jogo de poder—-preencher buracos—-o brilho do lado a lado—-cada umaum escuta, afina, cria em si mesma————————-o acorde vibra em liberdade.
s o f i a

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.