plantar dinheiro

como é que se geram recursos? um dia em vez da troca directa tivemos esta ideia de criar uma “coisa” que nos permitisse abrir o delay entre o desejo-necessidade e o ter. talvez pelo caminho tenhamos passado a usar essa coisa em contextos onde a troca directa seria o mais adequado. talvez por não se encontrar um fundamento para essa uso indevido do dinheiro se tenham criado linhas de força que justificassem essa desadequação, talvez isso tenha fortalecido o poder de uns sobre outros—-não sei.
esse delay abre um espaço de consideração importante que pode desangustiar as nossas acções. eventualmente quando sinto fome ou quando sinto frio não tenho a necessidade de adquirir imediatamente um alimento ou algo que me cubra, é um sinal. também é curioso que nos dediquemos a anestesiar sinais como as dores de cabeça ou a inflamação do pé em vez de considerar o que sinalizam esses indicadores. porque essa coisa-dinheiro acaba por ser na maior parte das vezes um potenciador do ter no imediato em vez de ser um abridor de espaço entre o desejo e o ter para que possamos até considerar se precisamos mesmo de adquirir aquilo ou não—não sei.
quando pessoas que encontro me dizem que é ofensivo falar de fome quando o que tu tens é vontade de comer fico um bocado aflita com a velocidade a que inflacionamos as ditas necessidades, o quanto preferimos queixar-nos de não ter em vez de gerar o que consideramos tão vital ter. essa geração não se faz em isolamento, ou far-se-á, se eu preferir retirar-me para um monte ermo e viver directamente com o que cultivo, o que contemplo, o que experiencio—-mas eu falo antes de viver juntos mais-que-um—-falo de sistemas mais complexos—-que o sangue circula por artérias, veias, e até capilares parece-me do conhecimento comum, que ao chegar aos tecidos para onde transporta nutrientes ou de onde recolhe o que não é necessário, o “sangue” transborda em lagoas e que as células se movem para se alimentar ou para se livrarem do que não querem— que as células dançam e conversam umas com as outras—-já não me parece do conhecimento comum—-mais depressa imagino que se considere que há um capilar tipo mangueira para cada célula…
lá estamos nós a confundir as coisas, a pensar que as artérias substituem esses momentos-lago ou que as estradas substituem os encontros nas esquinas ou que o dinheiro substitui a capacidade de abrir espaço de consideração entre o desejo e o ter.
talvez se o pagamento em dinheiro não estivesse tão impregnado de culpa se pudesse repensar economia ao nível mais pequenino, desde a oikos—talvez se abríssemos as possibilidades de reflexão sobre o que é ou não essencial para a vida pudéssemos reconsiderar o que valorizamos e o que, desses valores, vale determinado montante de dinheiro.
no abecedário que a claire parnet gravou com gilles deleuze ele diz que a arte libera a vida das prisões que o homem constrói. liberar a vida vale quanto?—não sei.
vou experimentar plantar dinheiro —vou mesmo—darei notícias da minha aventura!
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.