a fúria dos sonhadores, criadores de mudança

quando chego ao fim de julho, antes de aligeirar…olho para o caminho, para as marcas nas pernas, para a forma dos braços, para a grossura da pele, para as paisagens que me povoam os sonhos, para os saltos de irritação, para apertos de tristeza, para o desenrugar do sorriso…tenho que olhar para esse caminho que percorri e que continua a caminhar em mim, preciso não ignorar, quero integrar desde a mais subtil à mais tumultuosa volta.
o que tu fazes não existe, não tem utilidade, é absurdo passar um dia a rebolar no chão, não serve de nada estar sentada aí a escrever, não tem importância nenhuma percorrer ruas a pé, estar, isso não é nada, as perguntas são inconsequentes, para quê questionar? claro que é necessário que alguns se deitem a pensar para que outros trabalhem e tragam à matéria esses sonhos mas este não é o tempo para isso, estamos em guerra, estamos em crise, as pessoas não têm como viver não podemos despender recursos-tempo-atenção em poesia, temos que considerar o essencial para sobreviver, se não tens nada para dizer não fales, não passes a escrita para o papel que as arvores não têm culpa. a única função da arte hoje é distrair de vez em quando o foco da miséria quotidiana, abrir um intervalo no sofrimento, preencher os buracos dos corpos que estalam de medo e de tristeza. tens que oferecer alguma coisa às pessoas, alguma coisa visível. se não há um espectáculo porque lhe chamas festival? é interessante, realmente as crianças têm um grande à vontade ao pé de vocês, viste que até estiveram o tempo todo aqui? são da vossa família? não se percebe nada quem é da produção e quem é artista e quem é público. os habitantes não interrompem as suas vidas para vos ver dançar, não achas esquisito? ficam um bocadinho e depois até vão lá falar contigo e continuam o caminho. isto que vocês fazem tem sempre um ar tão fluido, tão fácil, dá ideia de que já aparece assim, é tão simples———comentários que ano após ano, temporada após temporada oiço e digiro, mergulho no mar, nado lá no fundo onde o som se confunde com o tremer, onde a visão se aproxima da fluidez com que vejo às vezes a cidade mesmo no interior do lixo, e quando volto a cima para respirar o ar vou tacteando o sentir. estou cansada? sem energia? deixei de acreditar em caminhar caminhando? terei força para continuar a existir? será por teimosia que escolho cada momento viver no olho do ciclone? será amor? será a minha forma de vida que se faz olho de ciclone?
dizem que o olho do ciclone é o lugar de siléncio-imobilidade no interior do temporal, uma imobilidade móvel, afinada, escutante.
preciso ouvir onde me fechei, onde me ceguei no entusiasmo do caminho, onde criei, onde destruí, onde me isolei, onde não ouvi.
neste momento encontro a imensidão do mundo na minha pequenez. deixo-me mesmo muda.
hoje estava a passear por um guia de lisboa e arredores do princípio do século passado e, pelo meio de descrições objectivas de ruas e casas e praças, deparo-me com estas palavras sobre a mouraria “…o fluxo e refluxo do movimento popular que mal deixa ouvir o dedilhar da banza mourisca e do piano aguitarrado nos cafés e botequins onde os rufiões do capelão e da amendoeira, brigões e cantadeiras, fazem estendal dos seus vícios e assoalham a sua miséria…”
o jornalista espanhol que veio acompanhar o festival com sua mulher também foi advertido, quando se dirigia à rua do benformoso mesmo no intendente para se juntar a nós no pic-nc com a rosa, que tivesse muito cuidado com a carteira que isto era uma zona muito má…já lá vão tantos anos com este estigma terrível que parece quase uma bandeira da estupidez humana….como se estar nestes lugares com estas pessoas fosse uma espécie de safari do grotesco, uma visita aos males do mundo…
oiço o deleuze falar que não existe potência boa ou má, o mal está na redução, no exercício do poder que reduz a potência. não será bem isto que ele diz, é o que oiço hoje.
quando abro os olhos ainda desde a mudez mais densa tenho essa sensação física da enormidade do caminho que se desenrola em torno da vida que vou sendo—-tanto trabalho, tanto amassar, esgravatar, carregar, puxar, sacudir, enterrar, deslizar, levantar, atravessar-atravessar-atravessar—-tanto atravessar se quero mesmo existir na afinação de ser-estar-fazer
e essa afinação não tem um dispositivo exterior que me afine, que me guie, é uma afinação que se dá no encontro, enquanto aconteço com o acontecimento.
deve ser como o apuramento do movimento do olho do ciclone, na sua quietude móvel.
não é fácil ouvir tantas vezes “isso não é nada” e continuar a acreditar nesse nada que não é ausência
no entanto não sinto esforço aí, sinto atenção, implicação, não desistência, escuta—-mas não sinto esforço—-deve ser por isso que não estou cansada
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.