rua da mouraria a ver a televisão dos pobres

viemos de casa de quem está sozinho. desde a chegada em que o corpo zombie parecia nem ter cor até que saímos para o sol queimante já com abraços e risadas, atravessámos histórias encarocaladas umas nas outras— do zé do telhado que roubava aos ricos para dar aos pobres, aos figos engelhados que não se podiam tirar das árvores, ao ter que desistir da escola para ir trabalhar, ao ler os miseráveis e o crime do padre amaro e mais um livro de sexo escrito por júlio verne que ninguém podia ver, ao monte que se encosta à montanha, ao meio alho para a sopa, ao vestido de algodão da índia—-e por estes montes e vales faz a cama—lava a loiça—-arruma os lençóis—massaja as mãos—-alonga as membranas do coração—-dá beijinhos—-troca palavras—-chora e ri—
agora sentamo-nos nas escadinhas do centro comercial virados para os bancos da severa. está uma tarde mesmo pesada e quente e muitas pessoas que moram na mouraria se sentam por ali ou ficam lentamente em bandos encostadas umas às outras. a erika está crescida, toda vestida de cor de rosa a beber um leite no pacote, do outro lado uma menina chinesa parece uma boneca de folhos vermelhos, dois miúdos pequenos repetem a marcha da mouraria com passos e reviravoltas e laivos de fado. um é o neto da bela que vai insistindo que repitam a dança, o galdino conversa devagar com velhotes sentados num canto. parece um louvadeus de calções com as duas muletas, quando nos vê aproxima-se para filosofar—-mais um encadeamento de pensamentos alucinante. é ele que diz que estar ali a olhar para quem passa é a televisão dos pobres, também diz que a televisão dos cães é a loja que vende frangos—por detrás da contorção de mármore que se faz guitarra da severa as flores cor-de-rosa estão muito viçosas e animadas, até pode ser que se distraiam e escondam um dia a guitarra, para começar imitam-lhe a cor e isso já ajuda a disfarçar aquela aberração.
a vanessa não está para conversas, discute com o hélder e atira com o plástico do bolo para o chão—num segundo uma onda de porcariação varre o acontecimento—-a bela despe os calções do miúdo e abre o mijo para o chão, o outro cospe grosso, rolam garrafas de plástico—neste momento estou num lugar de miséria típico. a falta de consideração e de carinho é angustiante—-ponho-me a pensar que deverá ser assim que se comportam também no interior de suas casas, passam tanto tempo aqui que este lugar também será casa para eles, não?—mijar na pedra como um cão—escarrar a pedra—largar lixo na pedra—-há pouco um bocado do bolo dela caiu na pedra, ela cheirou e comeu—isto de forrar a rua de pedra sem terra por entre espaços não ajuda muito a fazer circular estes fluidos-mucos, antes ficam achatados a um metro do chão, pressionados pela tarde quente, garantindo que se fazem ar e nos visitam a pele e os pulmões. não me assusta essa sujidade no corpo—sinto o meu sistema imune cheio de tónus, cheio de actividade e amor—é mais a estranheza que é estar ali e sentir que sou parte daquelas vidas nuas, despidas do silêncio que mora em mim quando agora que o sol nasce me vejo saboreando a delicadeza da manhã, os contornos ternos do móvel de madeira com livros, o chilrear dos pássaros, os brilhos dançando pela parede branca, o sussurro da voz ainda suave da vizinha da frente, o oscilar da janela entreaberta—será porque era tarde quente e agora é manhã ainda fresca? será que sou eu que sinto hoje muito agressivo o “programa de televisão”? é um estar muito sanguíneo, muito latejante e grosso, agreste, rugoso, áspero, hirto —curioso—é o tal estar de avançar-recuar—— de atacar-defender—-é esse estado que caía ontem frente à guitarra amarrando as formas de vida numa inevitabilidade de ser assim—curioso que por entre esse peso se mova a poesia—fecham-se as persianas da loja em frente, galdino despede-se—a mesma bela que há pouco maestrava a atmosfera de rasgo lança-me agora um sorriso cheio de ternura enquanto aperta o neto nos braços—-não acaba bem esta história—-não acaba——é uma dança
sofia com anais pedro e gonçalo

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.