rua de barros queirós, entre o largo de são domingos e a boca da mouraria

estamos sentados frente à ginginha nuns degarus altos da casa da prosperidade, agora chinesa e que já foi a mariazinha dos cafés e um restaurante afamado. pendurei o saco numa tabuleta de ferro que diz”siga pela direita”, espero que não seja outro ataque à democracia—-está complicado estar simplesmente na rua escutando o ar enquanto o mundo parece não parar de colapsar—vai sendo um gesto forte este de ouvir—confio—-aqui à frente tenho um bocado da igreja de são domingos a espreitar, cheia de merda de pombo, muitas janelas abandonadas, uma tem cadeiras de madeira empilhadas até lá cima—passam a prity e o tony loretti abraçados, vêm de lá para cá, agora passa a senhora das rendas que vai visitar a que vende gelados ali no rossio, essa vai de cá para lá— diz o senhor carlos que esta rua tinha muito movimento, as pessoas vinham do comboio e passavam aqui, tambem havia os eléctricos que passavam nas portas de santo antão e lá vinham as pessoas por aqui. desde que veio o metro passou tudo a andar debaixo do chão. isto quando há greve do comboio é que se nota logo. a rua do arsenal também tinha muito movimento e quando o metro começou a fazer a ligação com os barcos tudo se perdeu—agora passa-se ali e é uma tristeza—-mas de facto o sr. carlos também é dos que vai de metro ou de autocarro—perguntei-lhe se conhecia uma mercearia ali na travessa do cotovelo—é maravilhoso quando vejo tecerem-se estes fluxos entre lugares, e logo lugares que percorremos tanto a pé estes últimos 7 meses—-bom! na travessa do cotovelo havia uma tasca muito conhecida por causa dos passarinhos fritos, eu ía lá desde criança, era muito animado!—-é agora uma mercearia também muito animada, digo-lhe eu—estão lá a alda e a lídia e almoçámos lá todas as sextas feiras em jeito de pic-nic—engraçado—então e estas placas “siga pela direita”?—isso era mesmo por causa do movimento, está uma acolá e outra deste lado, está é a zona mais apertada da rua e era assim que se fazia com que as pessoas não chocassem umas nas outras. o meu tio esteve cá 50 anos e eu já cá estou há 28, ele é que me falava dessas regras de circular pela direita, até se pagava 25 tostões de multa se não fizesses assim—as placas foram restauradas há uns tempos porque os gandulos que vêm pr’aqui beber cervejas e que se sentam aí nesses degraus onde vocês estão é que se punham a fazer ginástica e acabaram por partir isto, por isso é que tem estes picos no ferro de cima—aí os chineses da casa da prosperidade é que os têm que aturar muito, sempre aí bêbados frente ás montras, mas são uma família muito simpática e têm conseguido não arranjar confusões—volto aos degraus, o gonçalo caminha ao longo da rua a ver se sempre se faz pertinente andar pela direita—passam pessoas vestidas de rosa,com rendas, de amarelo com bordados, de verde—passam pessoas de muitas alturas e gorduras e culturas e vontades, não têm muita pressa por esta rua—a senhora africana que pede esmola na cadeira de rodas atravessa a rua com um pé no chão a conduzir a cadeira—agora uma mulher lindíssima, parece-me uma flor exuberante—o pedro está de pé do outro lado da rua, descalço com os pés em cima dos sapatos—
quando vinha para casa já ali perto de são bento encontro o galdino que o ano passado nos contava as histórias do ninho das vacas nas escadinhas da saúde. fomos juntos ao mercado, agora vivemos mais perto um do outro, ele já saiu da rua do benformoso onde estava muito mal instalado. diz que ía a caminho de belém para beber um copo com um amigo mas sentiu que ia ter frio e voltou para tras, vai antes comer uma papa de aveia com banana e adoçante—-mmmmm—-o galdino sem o copo de vinho sexta feira à noite?
grande abraço—-gosto dos teus olhos de mel—-galdino, tu és fresco!
lisboa pessoa a pessoa, pequenina.
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.