subjectividades….

não consigo falar, escrever, logo após os acontecimentos

só consigo ver os destroços que o vendaval deixou

mas quando recupero alguma tranquilidade, algum bom senso (porque como diria o meu pai falando do juízo, eu bom senso tenho, é é de muito má qualidade) mas enfim, quando recupero o pouco que tenho, noto que não houve vendaval, nem destroços para além dos que eu própria crio

ao fim de sete anos de participação no pedras d’água, assistida pelo tal bom senso de má qualidade a perpetuar um mal-estar, e a palavra é mesmo essa: mau estar (com?),  a fugir da euforia que em mim é prenuncio de um desalento vindouro, a debater-me qual d.quixote com ventanias imaginadas, como dizia, ao fim destes sete anos de continuar teimosamente ligada, questionei-me finalmente: mas a quê? A que é que estou ligada?, quando tudo me grita, foge! não é a tua praia, lá vais tu entrar em conflito, ninguém merece entrar na tua rota de colisão?

e deste espaço de tranquilidade, ouvindo os sons das caianças dos vizinhos que recolhem baldes e escadas para se entregarem à calma (como chamam aqui à hora do calor) respondo hesitante, e depois de ler os últimos posts: são as teias que se criam entre as pessoas, são as ligações sempre a serem tecidas de novo e que estão para além do gosto e não gosto. É o micro, tão micro, tão micro, que se passeia impune por entre tudo e todos, que me mantêm junto daquilo que nem sei que está a acontecer, que me fazem chegar à galeria com duas horas de antecedência para me preparar para a abertura, sabendo que provavelmente não haverá ninguém nas primeiras horas. e tal como as minhas plantas que tiveram uma primavera muito dura se estão a recompor, tal como as aranhas que refazem a teia todos os dias sem pensar nisso, também eu me vou (re)tecendo, repleta desse amor que não depende dos meus gostos, das minhas vontades, das minhas empatias… esse amor dá-me força politica, dá-me força de querer todos os dias mudar, porque acredito que é nessa mudança diária de cada um, que teremos perspectivas novas para todos. deixo uma frase do guattari com a esperança de que um dia me vou apropriar (tornar próprio, tornar meu?) do pensamento, da ciência, da arte…

 

Assim, para onde quer que nos viremos, encontramos este mesmo paradoxo lancinante: de um lado o desenvolvimento continuo de novos meios técnico-científicos, susceptíveis potencialmente de resolver os problemas ecológicos dominantes e de reequilibrar as actividades socialmente úteis à face do planeta e, de outro lado, a incapacidade das forças sociais organizadas e das formações subjectivas constituídas de se apropriarem desses meios para os tornar operacionais[1]

Félix Guattari

 

 

e só para me despedir: politica vem da palavra grega polis, que é a Cidade, entendida como a comunidade organizada, formada pelos cidadãos (politikos), isto é, pelos homens nascidos no solo da Cidade, livres e iguais, portadores de dois direitos inquestionáveis, a isonomia (igualdade perante a lei) e a isegoria (o direito de expor e discutir em público opiniões sobre acções que a Cidade deve ou não deve realizar).  e eu diria, que do grito da revolução francesa a liberdade e a igualdade depende da nossa consciência, já a fraternidade…

Sejamos fraternos! E viva a Internacional da Esperança!
Imagem


[1] Les Trois Écologies. Paris: Éditions Galilée, 1989, p. 17

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.