copiar

o gesto da cópia—quando tinha 6 anos meu avô esteve uma tarde inteira comigo ensinando-me a caligrafia do seu querido século XIX, quando cheguei à escola no dia seguinte fiquei de castigo à janela com umas orelhas de burro porque a professora não acreditou que eu tivesse feito aquela cópia, nunca por um momento o amor da tarde que passei com ele desenhando cada letra numa mesa do quintal se desfez nem um bocadinho enquanto observava as outras crianças a brincar no recreio, nunca me senti ridícula com aquelas orelhas, não mora isso em mim—lembro-me de ter sentido alguma pena pela professora que não viu o amor e se deixou consumir pela desconfiança. quando me dedico à escuta através do toque das mãos o movimento que me aparece não tem essas dúvidas surdas—-é movimento—agora já sou grande, o andré está aqui a meu lado conversando no skype com um amigo que mora na suècia e eu escrevo-transcrevo-copio palavra por palavra este pedaço de livro que tenho agora em mãos(os diálogos de deleuze e claire parnet), a fotografia de entrada também foi “roubada” ao cristiano—são livres as palavras—são livres as imagens—-são livres as nuvens—são livres os fumos que devêm corpos:

…eis a questão-o que pode um corpo? de que afectos é que são capazes? experimente, mas é necessária muita prudência para experimentar. vivemos num mundo desagradável, onde não somente as pessoas mas também os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. a tristeza, os afetos tristes, são todos aqueles que diminuem a nossa potência de agir. os poderes estabelecidos precisam das nossas tristezas para fazer de nós escravos. o tirano, o padre, os ladrões de almas, necessitam de nos persuadir de que a vida é dura e pesada. os poderes precisam menos de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz virgílio, de admninistrar e organizar os nossos pequenos e íntimos terrores. a longa lamentação universal sobre a vida_a falta-de-ser que é a vida….podemos dizer “dancemos” que nem por isso ficamos alegres. podemos dizer “que desgraça é a morte”, mas era preciso que tivessemos vivido para termos algo a perder. os doentes, tanto de alma como de corpo, não nos darão descanso, são vampiros, enquanto não nos tiverem comunicado a sua neurose e a sua angústia, a sua querida castração, o ressentimento contra a vida, o seu imundo contágio. tudo é uma questão de sangue. não é fácil ser um homem livre: fugir da peste, organizar os encontros, aumentar a potência de agir, afectar-se de alegria, multiplicar os afectos que exprimemou encerram um máximo de afirmação. fazer do corpo uma potência que não se reduz ao organismo, fazer do pensamento uma potência que não se reduz à consciência.

é esta a minha cópia de hoje querido avô mário—nunca passará um dia que não viva em mim o amor de copiar—mesmo nunca querendo citar ninguém, mesmo não querendo inscrever uma metodologia, mesmo não acreditando em deuses, mesmo não venerando ídolos, nunca passará um dia em que o amor de copiar letra por letra, volta por volta, ondulação por ondulação, não me ensine a escutar.
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.