vivemos sobre coincidências? ou é mesmo real?

Ontem acordei com programas sobre a Mouraria…parecia que não tinha saído do sonho ou do pesadelo. Primeiro foi na televisão, a seguir na rádio. O discurso multiplicava-se em redor de empreendedorismo, eficácia, eficiência, competitividade… e turismo, claro. O modelo que se aplica e critica em tantas cidades mas que permanece na moda. Pelo meio descansou-me uma voz familiar que falava do Intendente, do verdadeiro Intendente. Onde existem problemas (e muitos) mas que não é isso que prejudica o negócio, é muito mais do que isso. Pelo meio continuava-se a falar do novo Intendente. Da largo limpo. Do largo branco. Da escultura de uma artista famosa. E a programação do Intendente, já olharam para ela? Não é que tenha algum mal! Os artistas que vão actuar neste novo Intendente são famosos e trazem (com certeza) muita gente ao Largo. Na 6ª feira a segurança era muita. No Martim Moniz , quando apanhei o metro à noite, a entrada da rua do Benformoso estava cheia de polícias. Também não tem nenhum mal. É  função da polícia assegurar a segurança e a livre circulação dos cidadãos.

Há um livro que tenho lido com recorrência nos últimos tempos. Chama-se (e passo a traduzir do castelhano) “A cidade mentirosa. Fraude e miséria do ‘modelo Barcelona’”. Fala-nos de uma cidade que é “um modelo de transformação urbana, da melhoria da atratividade e da posição estratégica da cidade”. Alguma coincidência com o que disse anteriormente? Talvez! Manuel Delgado diz-nos ainda que “na realidade, o modelo de projecto alucinado e visionário de cidade, joguete nas mãos de planeadores que acreditaram que os seus desígnios e a sua vontade de ordenar as instituições para as quais trabalham eram suficientes para superar e fazer desaparecer os conflitos, as desigualdades e os desconfortos”… mais coincidências? “Barcelona pode ser o que hoje é: modelo ou protótipo de cidade-fábrica, urbe convertida numa enorme cadeia de produção de sonhos e simulacros, que faz da sua própria mentira a sua principal indústria e que faz da sua componente humana um exército de trabalhadores-prisioneiros, produtores e ao mesmo tempo vendedores do seu próprio nada”. Barcelona é hoje top-model, mulher treinada para ser atrativa e sedutora, que se maquilha para depois ser exibida. Está na moda! É o fascínio de muitos turistas! Mas não é o modelo de tantas outras coisas.

Lisboa também é mulher! E está a ser treinada para ser atrativa e sedutora. A Mouraria maquilha-se a cada instante e canta o fado que está na moda. Será também um lugar da moda e do fascínio de muitos turistas! Mas não é modelo de tantas outras coisas.

Depois de acordar e de tentar equilibrar os sentidos, veio uma voz mais doce e o texto que tantas vezes eu própria já tinha lido, o apertar do coração e um sorriso ao lembrar-me de sorrisos. “os cabelos da dona piedade ou a urgência de nos deixarmos de conceitos e passarmos a por as mãos à obra criando laços” escrito em abril e que agora aqui repito mais uma vez ao recordar a Dona Piedade sorridente, cheia de alegria e de amor na inauguração da ‘exposição’ da galeria boavista:

“cada segunda feira continuamos a habitar a casa de quem vive isolado. 2 semanas já levava a dona piedade sem que lhe fossem dar o banho ou cortar as unhas e nós, as criaturas dos projectos, ficamos nestes impasses se isto é arte ou serviço social, se quem devia fazer isso não precisava de ser chamado à responsabilidade e por aí fora…entretanto aqueles que foram os nossos pais e avós, que nos tiraram os piolhos, ensinaram a cozinhar, contaram histórias de outros pais e outros avós, vivem sózinhos…arredados das nossas agendas…

não acredito em grandes ideias para salvar o mundo, proponho antes que cada dia olhemos à nossa volta, uns centímetros para lá do alcance do nosso perfume: criar laços não é criar dependências, o amor não ocupa espaço, a arte é uma prática que expande possibilidades! por favor deixemos de “ajudar” os outros, de “salvar” os espaços e passemos a considerar ouvir e vivercom. é evidente que daqui a uns 10 anos os serviços sociais não terão mãos a medir para a “população idosa”. esta sexta feira passada ( a santa) estava na casa da dona piedade uma senhora técnica que tinha 15 velhotes para visitar, só estava ela e outra pessoa com uma região imensa….às tantas o senhor que a outra tratava e que é muito gordo caiu e ela teve que largar o que estava a fazer para atravessar o bairro e ir ajudar a levantar o senhor do chão…é absurdo. não mora ninguém no prédio? não passa ninguém lá à frente?
dona piedade adoptou-nos como família, diz que não vale a pena ligar muito a esses laços hereditários, a família está no coração. diz também que cada vez mais lhe crescem as unhas e os cabelos…diz também que é porque a morte se aproxima…cada visita, cada “casa cheia”, é uma infinitude de histórias, de risotas, de entrevistas, de picnics, de danças…mas também de corta unhas, vai buscar leite, cozinha a sopa, corta o cabelo…
onde é que nos esquecemos de acompanhar o que fomos e o que seremos em cada grão de vida que caminhamos?”

E Barcelona aqui ao lado a olhar para nós!

Ana Estevens

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.