uma história

nesta ultima conversa na rua em que falámos de escola uma das crianças dizia que a disciplina de história deve ser para contar o que aconteceu—como cada um acontece à sua maneira eu vou contando o que os meus olhos acompanham: vejo a bela do mercado que se levanta às 3 da manhã para vir vender plantas e diz que acredita que se as pessoas mexerem na terra e virem aquilo que plantaram a crescer a seu tempo que serão mais felizes—vejo muita gente a morrer de solidão e abandono enquanto se gastam milhares de euros em ideias superficiais—vejo que a escola não está pronta para acompanhar tanta criança que chega aos trambolhões sem saber falar nem uma palavra de português e que provavelmente em alguns meses se vão embora para outros lugares—vejo lisboa continuamente em obras para um dia ser tudo perfeito e entretanto não se consegue passar pelas ruas sem ser acrobata—vejo a crinabel cada vez com menos possibilidades de ajudar as pessoas com deficiência por recuos sucessivos de financiamentos públicos—-vejo a cidade a fazer de conta que essas pessoas não existem e que se existem o melhor é ficarem escondidas nalgum lugar para não termos que as ver mesmo—vejo que o nelson que tem paralisia cerebral e que pensa e ama como qualquer um de nós não pode ter uma vida sua porque não consegue ser autónomo e ser autónomo(na visão de hoje) é viver isolado sem suporte…—vejo que o financiamento às artes só é justificado se as artes estiverem ao serviço do poder—vejo a felicidade de brincar na rua quando a criançada larga a correr e a saltar em vez de “ir da escola para casa rapidamente por causa do perigo da rua”—vejo o aumento de controlo público através de câmaras de vigilância e outras medidas desumanas e a ausência de consideração de outras formas de estar no espaço público que não sejam invadir/roubar/violentar/usar/abandonar—vejo que as pessoas que passam na mercearia da alda e da lídia já vão ficando para jogar à macaca nas marcas de giz que lá fomos deixando—vejo que é possivel não ver só o que te mostram a cada minuto nos telejornais, que é preciso chorar mais para lavar os olhos imundos de tanta falsidade—vejo que a rita quer ser bailarina e a vera quer ser professora e que neste momento estão mesmo de asas abertas sendo o que vão sendo—vejo que o movimento gera movimento e que temos que estar atentos para o movimento que ajardinamos—vejo que muita violência que se instala vem de uma grande tristeza, de não nos sentirmos escutados ou respeitados, de nos vermos de repente injectados de poder e queremos exercer a vingança de tanto tempo calados—vejo que a maior parte das saidas de guerra com peito feito são fundamentadas em coisa nenhuma e que se olharmos mesmo nos olhos não mora lá nada a não ser o alimento da propria vontade de inchar o peito—vejo, como diz andré meu filho, que os humanos são a única espécie capaz de se dedicar à própria destruição—vejo quando o meu pai lê o que escrevemos acontece um movimento muito maior do que a distancia-proximidade entre cada umaum de nós e ele

sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.