estar juntos mais-que-um—uma história do dia de ontem

ainda não nasceu o sol— é o último dia do pedras12—esta história de vida que estamos a co-escrever conta-se sozinha—não preciso reivindicar o seu acontecimento—como uma erva daninha o trabalho do pedras rompe por si mesmo por onde rompe—-quer caiba quer não caiba, até por entre cimento, por entre chumbo, por entre imobilidades reconhecidas—percebo que seja terrível para quem quer garantir certezas-classes-categorias-verdades—é o próprio acontecer que se faz visível criando o seu próprio corpo—o dia de ontem—quero contar o que vivi no dia de ontem que ainda é o dia de hoje: andei às voltas atrás das pernas sózinha subindo e descendo ruas, escutando o momento de me deixar entrar no largo da severa onde íamos tomar o pequeno almoço com o nicolai, o nelson, a ana, a rita, a vera, o mário a professora helda, a amália,o lyncol,a joana—estas pessoas da escola da madalena e mais quem quisesse comer cerejas e cereais com leite às 9 da manhã—pendurámos juntos as fotografias—arranjámos juntos a mesa—esticámos juntos a toalha—comemos e brincámos e às tantas demos as mãos numa roda para um jogo de dizer nomes—vamos trazer o livro?—o tempo vai passando para a frente e para trás sem seguir um fio—estou ontem-sou amanhã-que ternura—a piedade ainda dormindo da festa da noite antes—as risotas ecoam no largo—revoadas—chega o livro em saquinhos coloridos de papel, cada um com 3 filmes que contam a história da criação destas histórias aventanadas que o livro nos traz—pelos cantinhos cada umaum lê pedaços qe gosta a quem se queira aproximar—a Isabel de pé no muro, o mário a abanar as pernas na cadeira—mesmo com tanta alegria e com a camioneta das obras a despejar areia a 2 cm de nós—ainda nos sentámos pelo chão pensando em escola-estarjunto-educação-campainhas-espaços muito grandes-rua-ciencias de separação-aprender enquanto vivo-inventar a história—talvez seja mais por aqui o movimento das conversas onde quero estar—agora levantar as fotos-arrumar as mesas-abraçar os livros-e seguir para a rota deixando o largo como sempre foi—irremediavelmente diferente—atravessar a baixa de chapéu de sol azul—mercado da ribeira, a dança da diana revelando a liquidez dos espaços—da humanidade—a dança gerando dança por entre quem vende legumes ou quem observa num banquinho—cada corpo que dança amplia movimentos da sinfonia—uns corpos mais que outros abrem possibilidades de estares no teu acontecer enquanto se desdobram outras pulsações de acontecer—não te separas enquanto analista-crítico-espectador—escutas-te co-acontecendo nessa dança que elastica o estarcom—às tantas deitei-me embrulhada na manta laranja e deixei-me adormecer uns 5 minutos—preciso deixar alentar a respiração—ajardinar ser-estar-fazer sem me atropelar—-se a intensidade aumenta tenho que aprender a abrir—café 13 de são paulo e a atmosfera já se vai fazendo outra com as cantorias e selvajarias e a chegada das pessoas da crinabel cheias de abraços apertados—a rota foi seguindo intensa ajuntando-desajuntando-transitando—o sol a inclinar-se e nós a chegar de volta ao largo da severa onde tínhamos começado o dia—a co-existencia ao rubro-grande ginastica de pulsar enquanto os aconteceres pulsam—a atmosfera do chá tinge-se da chegada dos velhotes que se se aprontaram quase 2 horas mais cedo—a piedade desce com o vestido por cima da camisa de noite—-a criançada volta ao largo—-o alban corta o cabelo no barbeiro indiano enquanto lê um poema feito de sons ritmados—o tony loretti vem todo stressado dizer que temos que tirar tudo dali-as pedras-as fotos- imagino que os velhotes e as crianças também—danço-dançamos-vem aí o presidente—-a programação dos fados a impor-se à programação subtil do grande nada—então se vocês não organizaram estes fados o que é que viemos aqui fazer?pergunta a lurdes exercitando a rezinguisse—viemos fazer nada-estar aqui-cortar cenouras-contar histórias-cantar canções-fazer nada-amar-escutar-viver-ela ri—gargalha mesmo—então está bem—alinha—encenam-se os fados com garrafão de vinho e tudo—belas vozes—o espítito bairrista lança as redes—-mesmo frente à barbuda que permanece silenciosa depois da violência sofrida—-silenciosa e presente—latente—olha os meus olhos tony—o que estamos a fazer vai continuar aqui enquanto acontecem os fados e a passagem do presidente e a televisão francesa—vês alguma sombra de impossibilidade nos meus olhos?na atmosfera?não vale a pena vestir corpo de guerra—não acontece um corpo de guerra por entre esta liquidez—desfaz-se a solidez—misturam-se as águas—as duas programações-movimentos tão distintos-co-existem como co-existem as coisas mais absurdas vida fora—que força que tem o pedras—-nem vacilou—-faz-se a revolução sendo—-faz-se a revolução sendo estando fazendo—-afinal até ficou bem os fados com as vossas coisas aqui—-sim- coisas!-que há pouco até era para”tirar estas coisas destes bancos”e “estas coisas” eram o sr.alexandre a antónia e a lurdes—-não ficou nada bem—também não se impregnou nada de mal—aconteceu e continuou a acontecer—-numa força de vida impressionante largamos a descascar cenouras enquanto o fado desaparece na esquina—o amor estica os braços—o peito abre—-os olhos enchem-se de lágrimas para lavar poeiras—ó milu não tenhas medo—cantamos—-brincamos-comemos—-dançamos-abraçamos—estarjunto-mais-que-um—o que aconteceu enquanto a noite se estendia-acompanhando a lurdes em canções suaves até ao beco do jasmim-limpando as lágrimas da piedade ao som do grandolavilamorena-beijando a ritinha que não queria ir para casa-bebendo a cerveja ao som das histórias do felismino—-o que aconteceu enquanto a noite se estendia foi mesmo essa comunidade que vem—-atravessar impossiveis e estarjuntos mais-que-um—-lado a lado.

vou dormir mais um bocadinho—-silêncio—

o sol já nasceu— as minhas pálpebras querem descer. querem deslizar pelas bolas-olhos-abraçando o choro—-mudez—–silencio

até já

sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.