praticar comunicação(also in english below)

o cem é uma estrutura de investigação artística dedicada ao estudo do corpo e do movimento. o pedras é uma prática que apura o encontro com pessoas e lugares.

ainda que aceitando que aquilo que eu digo não é aquilo que tu ouves abre-se a justeza de dizer que:

-corpo não é um agregado de matéria sobre a qual alguém ou alguma coisa actua mas um acontecimento constante que integra a potencia de ser bem como a sua configuração no agora.

-considerar movimento implica integrar que não existem pontos fixos, que é redutora a categorização de formas de vida, que acompanhar o acontecimento exige a afinação com esse ajuntamento específico, que a nomeação de determinadas matérias visíveis não pode substituir a escuta da trepidação que as viabiliza.

-o encontro exige deformação. O encontro advêm do movimento de todas as partículas envolvidas e não se foca na passagem de determinada forma a uma outra (trasnformação), mas no trânsito de reconfiguração.

tendo iniciado o seu caminho no início dos anos 90 o cem sempre exercitou formas de desenvolver trabalho lado-a-lado sem partir de uma cisão entre prática e teoria e crescendo no interior de um ajuntamento de indivíduos interessados em diversas áreas do conhecimento como a arte, a ciência ou a filosofia, que, apurando a criação enquanto geração de possibilidades e não enquanto ferramenta de construção de produtos, se interacompanham no caminho de relação com as realidades que produzem ou que os atravessam.

a diversidade de pessoas que percorrem os programas de formação e investigação elaborados pelo cem exige uma permanente ginástica de reflexão-discussão-ação que muito tem contribuído para a elasticidade da qualidade de estarcom qualquer contingência, qualquer forma de vida, qualquer acidente, qualquer contexto. de facto o exercício não é  criar as condições ideias para avançar com determinado gesto mas confiar que o próprio gesto, ao estar afinado nessa tal escuta ao momento do acontecer, produza a atmosfera adequada que lhe permite existir.

é estando na rua que aprendemos a estar na rua, é caminhando pela cidade que ajustamos o passo da caminhada na cidade, é permanecendo horas a fio numa praça, num largo, numa esquina que afinamos a capacidade de ver essa praça, esse largo, essa esquina.

ao não nos dirigirmos a determinada representação mas à presença móvel que encontramos, o trabalho que desenvolvemos com escolas, centros de dia, grupos populacionais estigmatizados ou espaços identificados enquanto “carenciados” ou “abandonados” move-se sempre no encontro um a um, apurando a oscilação entre as linhas de ser-estar-fazer de cada pessoa-situação e as formas emergentes na co-existência de determinados seres-estares-fazeres. como quem aguça o ouvido na pulsão entre a sonoridade do violino e o acorde da orquestra .

a expressão recorrentemente referenciada “para nada” tonifica o ajustamento constante de cada prática na própria qualidade de se fazer escuta-ação e liberta aquilo que vamos criando do descolamento nascido das justificações e expectativas, dos “porque s e paras” que tantas vezes deslocam a energia necessária no decorrer do processo para acções esvaziadas de pertinência, de adequação ao contexto presente, ou mesmo de humanidade num sentido mais lato da palavra.

a utilização da arte para provocar uma alteração de comportamentos parece-nos uma abordagem reduzida e redutora. aceitando a importância que a investigação artística, enquanto exercício contínuo,  e a criação, enquanto movimento gerador de movimento, têm na construção desse outro corpo-outro mundo que se adivinha hoje quando nos referimos  à tão citada “mudança de paradigma”, propomos que se considere o movimento da investigação-criação em si mesmo, enquanto prática de questionamento de formas de vida..

quando em 2007 tivemos a oportunidade de cobrir de relva o largo de camões sem assinar a açcão, quando ao longo de uma semana fomos integrando quanto a criação de um chão permitia que cada um de nós encontrasse outras maneiras de se inter-compor, quando no dia 25 de abril  a praça amanheceu verde e cada um a fez sua sem hesitação, conversando, ajuntando-se, passeando, nós percebemos no corpo, no tal corpo-acontecimento, a importância do estarcom, a relevância da invisibilidade, a especificidade da escuta, a potência do não enquadrar, a celebração de viver-junto-mais-que-um.

é esse o trabalho que ajardinamos desde então, agora sem relva, agora estendido a temporadas coma duração de um ano, agora com mais dificuldade em justificar financiamentos exactamente por se abrir em continuidade, por resgatar a invisibilidade, a experimentação ou a imprecisão enquanto escolhas e não enquanto fases de um processo de trabalho que se quer visível, contornado  ou fixado.

alguns encontros permanecem de temporada para temporada, como o trabalho com a escola, com a creche, com o centro de dia, com determinados lugares da cidade, sempre começando mesmo em continuidade. outros vão e vêm como as nuvens.

mas cada encontro com cada pessoa, com cada lugar, só acontece acontecendo.

sofia

people and places

cem-centro em movimento is an artistic research structure that studies the body and movement. pedras is a practice that tunes the encounter with people and places.

While accepting that what I say is not what you hear let us consider that:

-Body is not an aggregate of matter upon which someone or something acts but an event that integrates the potency of being and its configuration in the moment.

-Considering movement implies that there are no fixed points, that categorization of life forms reduces the ability of beingwith, that accompanying the happening  requires constant tuning with  its  particular becoming, that naming certain visible matters can not replace listening to the vibration that shapes them .

-The encounter requires deformation as it implies the movement of all particles involved.

 

Emerging  in the early ’90s, cem always insisted on working side-by-side creating practices that don’t consider a split between theory and practice, growing within a gathering of individuals interested in various areas of knowledge such as art , science or philosophy.

The diversity of people who go through cem’s research programs demands permanent gymnastics in discussion-reflection-action which has greatly contributed to the elasticity of the quality of beingwith any contingency, any life form, any accident, any context.

In fact the exercise is not to create the ideal conditions to move forward with a certain gesture but trust that the gesture itself, tuned to listening to its own becoming, produces the right atmosphere that allows its own existence.

It is being in public places that we learn how to be in public places, its by walking in the streets  that we adjust the step, its remaining  hours and hours in a square or a corner that we learn how to see the square or the corner.

We do not address to a particular representation, but to the ever changing  presence we meet.  The work with schools, day care centers for the elder, stigmatized population groups or places identified as “needed” or “abandoned” always considers a one-to-one relationship, listening to the oscillation between the “dance” of each individual and the one created within the co-existence of a diversity of life forms. Something like the action of sharpening our ears to the sound of a violin as we listen to the chord created by the hole orchestra.

The expression “for nothing” emerges out of continuously adjusting each practice to its own making, releasing what is being created from the detachment often identified when we shift our focus towards justifications and expectations, when we get lost in the “because” or in the “goal” often moving the energy necessary towards actions devoid of relevance, or even humanity in the broadest sense of the word.

The use of art to provoke a change in behavior seems to us a reduced and reducing approach. Accepting the importance that artistic research, as a continuous exercise, and creation, as movement generating movement, have in the emergence of another-body-another-world within the so called “change of paradigm”, we propose the consideration  of  artistic research/creation as movement in itself, as practices of questioning and discussing ways of life. ..

When in 2007 we had the opportunity to cover with  grass Largo de Camões without signing the action, when over a week we found ourselves integrating how creating a floor had allowed each of us to find other ways to inter-compose, when april 25 dawned green and everyone inhabited  the square without hesitation, chatting, gathering up, walking around, we saw the body, the body-event, the importance of beingwith, the relevance of invisibility, the specificity of listening , the potency of not framing, the celebration of living-together-more-than-one.

This is the garden we care for since then, now without grass, now extending the duration towards one year long seasons, now finding  more difficulties to justify funding exactly because of continuity. Probably also because we do not consider invisibility, experimentation or inaccuracy as phases of a work intended to be visible, fixed in strategies or framed in a specific category. It is a choice.

Each year we recognize a geographic and human map, always the same but slightly different , designed with places you can walk and touch within the heart of Lisbon.

Some encounters last from season to season, those with children at  school, or elderly people in day care centers, or certain parts of the city, others come and go like clouds.

But every encounter with every person, every place, happens in the its own happening. We walk together side-by-side, we make errors, we ask, discuss, we do not know, but we do not create dependencies.

As someone that parks cars at Mouraria would say, beingwith people and places “is a dance that celebrates the spirit of freedom.”

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.