mas quem desenha as cidades?

estudando lisboa foram-me ficando histórias de um crescer orgânico que se abria a partir dos espaços habitados por cada um. alguém que continuava construindo as paredes de sua casa entrando sem pudor pela rua fora—a carroça já não passa com esta barriga de pedra—essas deformações da cidade vinham então acentuando acidentes geográficos e inventando outros acidentes—uma espécie de necessidade-pópria-ó-centrismo—-a prática de projecto instalou-se depois.

agora esse tal projecto conta-nos muitas vezes outras histórias—a palavra “crescer” ainda mora por aí mas “orgânico” ou “espaços habitados por cada um” parece ter dado lugar a conceitos que incluem assepticidade e criação de “reservas urbanas” onde se possa garantir o pitoresco ou onde se garanta um tipo de comportamento controlável, monitorizável.uma espécie de faz-de conta-que-estou-a-ver-as-necessidades-deles-embora-me interesse-mas-é-um-conceito-de-cidade.

é curioso como essa cidade projectada sem humanidade devolve o abandono a quem a percorre acumulando lixo em cada canto, não considerando as formas de vida que a fazem ser-cidade.

o espaço dito público é de facto o espaço que não integramos como habitável, é uma construção inevitável que uso para atravessar de uns lados para outros, como se enquanto transito deixasse de existir—como se os espaços entre espaços ——-espaços entre espaços—-visão segmentada————-manta de retalhos———incapacidade de considerar movimento—–mania de fixar———-ilusão de controle——sede de poder——-enquanto me deixo escrever sinto a chegada das pausas——–atravesso a membrana onde as partículas tendem a convergir—onde—-me esqueço de respirar————onde me centro no que falta, no que é preciso, no que assusta——e vou vendo que o que vejo não é o que vejo——que para além da soberba humana——dos tempos políticos com mandatos a 4 anos——–para além da vaidade de deixar uma marca——-uma bandeira na lua—————outros movimentos pulsam———só tenho que confiar em abrir os olhos-a pele—a atenção— e não me bloquear na identificação do que encontro——ver o que vejo e permitir-me ver o que não vejo——co-existir

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.