foi a ultima rota- o último baile, antes dos dias 5-6-7 em que acontece o festival.

a chegada do festival traz a sensação da mesma coisa ligeiramente diferente. lisboa faz-se um harmónio como aqueles entrelaçamentos de serpentinas que gostava de fazer quando era pequena. o mercado ao meio dia já está a aprontar-se para ir recolhendo. converso com quem fui conhecendo, deixo o jornal da semana, oiço as tecituras que cada um faz sobre alguém que conhece ali para os lados do intendente, ou sobre deixar ovos na travessa do cotovelo. lisboa estica e encolhe. a diana ondula por entre as bancadas, o corpo não deixa marcas no território, parece-me antes ampliar afinidades. já percebi que o vosso trabalho é estarcom cada um, são benvindos, diz a senhoras dos legumes, digo que o festival não vai provocar grandes ondas, não vão chegar cadeiras e luzes especiais, diana continuará dançando com tem dançado cada dia ao longo do ano, ondulando-deslizando por entre as paisagens, conversando com alguém, criando e sendo criada na atmosfera que acontece, nada de novo, só a emoção de partilhar esse acontecer. digo que vamos já considerando esse tempo que se aproxima em que recolhemos a estúdio, deixam de andar por aqui? pergunta a bela, esse recolhimento de meses é tempo de integração, de revolver a terra, de escutar o chão que se alinha de novo. esse tal chão que não vejo mesmo caminhando, o desconhecido que percorro cada dia e que me abre a possibilidade de reconhecer um “assim” ou um “aqui”, uma cadencia diaria de viajem com a cidade, um mapa geografico e humano que é o que for mas que seja qual for será aquele, será assim, será aqui, digo que suspeito que o próximo pedras continue a caminhada pelos lados do mercado, que esta chegada este ano foi só um começamento que plantou a pertinencia de continuar começando.

num salto estou na travessa do cotovelo, estou no largo da severa, estou no café do joão, estou deitada frente à lavandaria junto ao largo do intendente, estou de volta ao largo de são paulo, na galeria da rua da boavista, estou a qui e em lugar nenhum.

várias vezes a garganta se apertou e os olhos se encheram de água, tenho a sensação de estar no interior de um movimento muito precioso.

entrevejo as outras pessoas que fazem a rota, manchas mais ajuntadas ou mais abertas. encho-me de ternura. cada umaum deformado pela experiencia deste ano de trabalho. o nuno e o tiago trazem o equipamento para a emissão ao vivo da rádio, lançamos mensagens para o abel em curitiba. deitada a observar a dança das nuvens, ali por entre os telhados do benformoso. tenho a sensação da mobilidade das distâncias.

as paisagens da praça do comércio, ou do cais do sodré, ou da mouraria movem-se revelando outros fluxos entre espaços, outros corpos.

cada forma de vida me fala do movimento que a potencia, vejo esses movimentos atravessarem corpos e atmosferas que acontecem. quando me relaciono com o osso ou com o chão enquanto lugares duros deixo de ouvir a elasticidade que também pulsa ali, essa tal mobilidade não parte de um ponto fixo. é a mobilidade da mobilidade.

oiço alguém falar sobre determinada zona de lisboa a partir de uma série de conceitos cansados, não me apetece falar. está muita velocidade no ar, nem sei como já vai começando o forró, barriga com barriga inventamos a dança. as grinaldas de crochet parecem já saber esticar-se por entre os cantos, os carros parecem saber baixar as cabeças para poder passar sem impedir a festa.

a lídia fecha a mercearia e segue com o baile rua fora, o sol vai-se inclinando. augusta não pára de dançar, é mãe de um músico que toca com a cesária évora, fala-me destas músicas lá na ilha do fogo em cabo verde. gente crepitando pela areia sacudindo ao ritmo da dança.

o baile chega à galeria da boavista onde a radialx está  afazer o check sound para os concertos da noite, o baile chega e entra por ali dentro. o violoncelo-ricardo aceita o convite do acordeão e as águas misturam-se. encontro inesquecível este transbordo do final do baile por entre a preparação do momento seguinte…mas isso já é outra história-

outra história que é a mesma.

sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.