césar fadista tece lisboa entre a mouraria e o largo de são paulo

vinha a rota do mercado para o cafézinho no 13 de são paulo com o sr. manuel e a dona irene. vendo a fanzine diz ele que esse é o tragédias, o manholas, aí na fotografia do jornal, está sempre a queixar-se ou inventar manhas. a dona irene insiste que um dia escreve sobre o sr. manuel, é um homem muito bom que aqui está. e vá de se ouvir um passo doble alto-alto e bom som, uma voz grave e charmosa-então amor?—sim—ó filha eu não bebo detergente, só bebo vinho. é o césar martins do fado vadio. cigarro soltinho nos lábios, sorriso malandro. eu já vos vi lá no tony da severa. estou lá parado muita vez. agora já não canto, tenho um cancro no pulmão mas não deixo de beber e de fumar. risota. estive em angola e fui lá preso por cantar uma canção que parecia um elogio às damas mas era uma crítica ao salazar. que bonita voz. podem escutar meus senhores-eu hoje canto às flores-por terem valor profundo-é que elas hoje em dia-só servem de fantasia a tapar faltas no mundo—quantas vezes afinal-no dia de um funeral-de qualquer assassinado—se encobre um criminoso-com falso ar desgostoso-mas com as flores de braçado—à vista de flores belas-também passam por donzelas-muitas noivas caprichosas(esta era prós parasitas)—que tapadas com a franja(esta era à pala do salazar)-e a tal flor de laranja-lá vão em maré de rosas—e  é por isso senhores-que eu hoje canto às flores-por terem valor profundo—é que elas hoje em dia-só servem de fantasia- pra tapar faltas do mundo—

cante-nos um fadinho césar—-e cantou. silencio. não a formalidade do silencio que se vai cantar o fado. a urgência do silêncio que aquela voz emana cantando o fado vadio. o silêncio serpenteando por entre os sons da cidade, o encher das bicas nas chávenas, as conversas das pessoas. fecho os olhos. lisboa não é um sinal no mapa. pulsa, estica e encolhe. agora faz-se pequenina, tão pequenina que posso ouvir as tesouras do cabeleireiro do rapaz indiano com quem estivemos dançando a saia da carolina ao lado do tony da severa.

também hoje se faz ontem, o antes se faz depois.

estive num debate com a margarida trazendo à discussão outras formas de vivermos juntos. falava-se de globalização. de mundo pós-globalização. insistimos em não organizar modelos. insistimos em reforçar o quanto a pressa de fixar impossibilita pulsar—ainda fica na zona da conversa de artista—ainda há muita força para emoldurar a utopia ou o sonho num lugar passivo que alguns por toque divino praticam—os sonhadores ficam deitados de barriga para o ar a criar, os arquitectos desenham projectos que concretizam essas ideias e os obreiros trazem-nas à matéria—

pois enquanto não considerarmos o enquanto—a coexistência de movimentos—enquanto partirmos da separação—será complicado ouvir a cidade a fazer-se pequena-grande-ontem-minúscula-hoje-íntima-infinita.

e se um dia a ouvirmos pulsar provavelmente dedicamo-nos a por uma bandeira na descoberta e a cristalizar de novo no sossego das verdades—

o césar desliza entre lugares, entre pessoas, agradeço cada momento

escreveu um recadinho para a próxima fanzine!

agradeço

sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.