quase toda a mouraria está pronta para a vinda do presidente

há festão por todo o lado (embora os arraiais tenham sido reduzidos à expressão mais minúscula), enquadram-se janelas, enfeitam-se os canos, os grafitis são cobertos de tinta bege para dar aquele ar que era branco mas o tempo foi escurecendo a alvez. também se pintam os bocados de edifícios que espreitam por entre caminhos, parece um filme de cowboys com seus cenários de cartão e o john wayne montado num barril que balança. os obreiros trabalham até depois da meia noite com a  maquinaria a vrrrrrrruuuuuuuuuuuumvrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaam. as pedras entram no puzzle e desamontoam-se dos cantos. os carros são rebocados. os drogados, prostitutas e outras aberrações são higienicamente retirados dos lugares—-subo agora as escadinhas de são cristovão ao som de música de cabo verde, vou rumo à achada—e pronto—o caos foi todo arrumado aqui. é o armazém. o chafariz está amortalhado num lenços, as pedras e outros escombros fazem montanhas por todo o lado, há mais carros estacionados do que espaço entre becos—a dona maria, se pudesse sair de casa, não daria nem um passo nesta confusão de lixo e montanhas—é que a rota real não passa aqui! para chegar à casa da achada é melhor fazer um workshop de parcour!

agora estou no largo da severa, 12 obreiros de colete fluorescente numa azáfama terrivel compõem buracos. passam 4 cavaleiros do apocalipse de sapatos engraxados e fatos caros, devem vir supervisionar, um deles pega numa laranja e por momentos parece-me que vai colar laranjas às arvores franganitas que nasceram no largo de um dia para o outro.

o escrito da barbuda é dos tais que desapareceu debaixo da tinta bege…imagino que os ratos e as baratas estejam todos escondidinhos por trás destas fachadas pitorescas.

viva a falsidade!

o meu ombro esquerdo é que foi mirrando durante o percurso e acabou por me trincar um nervo que me azucrina o movimento! estou na rua da mouraria frente aos bancos, saltamos à corda, um manifesto político sem discursos nem corta fitas!

o ombro continua aflito, mora no meu corpo a absurdice destas operações de higiene para “salvar” os coitadinhos dos populares e re-qualificar os espaços. é uma dor que fura.

em breve começa o micro-baile—a magia da festa que é criada por quem lá está—vêm entrevistar-me “então acha que os microbailes são para os lisboetas ou para as outras pessoas?” não percebo nada destas perguntas —o que são os lisboetas se não quem passa ou se demora em lisboa. digo-lhe que o que me encanta na festa não é a animação dos tristes, é que cada um cria a festa, o baile é de quem o dança. agora a velhota lá de cima faz descer por um cordel duas laranjas e um pacote de bolachas. “obrigada por passarem aqui meus amores”

não me fico no ombro que grita. tem que haver outras formas de vida. tem que se ouvir este outro corpo.

sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.