Os polícias do corpo

Há uma linha que diz até aonde o corpo pode ir, não é o que se consegue fazer, pois esse conseguir é reclamado pelo próprio fazedor, nem o que o corpo pode pois esse fazer é ajardinado e não é controlável… a linha que diz até aonde o corpo pode ir paira-lhe à volta como um contorno, está legislada nos olhos de quem o olha – está inscrustada nos olhos de quem olha o corpo, um risco na irís que estabelece a diferença entre o que está a acontecer e o que deve acontecer. Estes olhos policiam o corpo, o próprio corpo de que são olhos e dizem até aonde o corpo-objecto pode actuar… na segunda feira alguém disse de alguém que uma senhora viúva não se devia sentar ao colo de um homem… senhora, viúva e homem são corpos contornados nessa linha embutida nos olhos: cada um pode ir precisamente até ali e esse ali toda a gente sabe onde é (será isso a cultura?)… não acredito no trabalho que tenta estilhaçar este contorno, também não me identifico com o fazer de conta que ele não existe e trabalhar noutro lugar… como eu faço é tentando atravessar a linha… quando atravesso linhas deslumbo-me sempre com a constatação da sua espessura, ponho-me noutra relação com a linha… ver a espessura exige de facto uma constatação de corpo que atravessa, neste caso, a ausência dele… talvez este fazer, este trabalho impeça de se instalar a cultura… talvez por isso seja tão desconsiderado enquanto trabalho e tão amado enquanto acção… como algo que é preciso fazer mas que não se deve falar nisso – lá estão as linhas desenhadas nos olhos – como fazer cocó, tratar de alguém doente, abraçar outro corpo na urgência de o fazer… antes é melhor falar de defecação, de fazer tratamentos, ou estabelecer afectos… o corpo devidamente policiado naquilo que deve fazer, devidamente delineado na sua forma de se dar a ver… precisando de se sustentar para poder viver no que não se deve dizer, mas rejeitando-o quando o encontra fora dos contornos incrustados nos olhos.

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.