Esta é a história de quem participa da história, seja ela qual for!

Saí da Escola na Rua da Madalena com um pedaço de história junto a mim, andei pelas ruas e o sol lutava contra as grandes nuvens cinzentas, uma batalha que acabava em chuva. Aquela história que ia comigo se mexia, quase que escapava para fora, queria continuar…

Chego a casa, adormeço e sonho que estava sonhando, e no sonho a história abria-se e dizia pela minha boca e pela minha voz:

“A história já começou e ainda não terminou, ao mesmo tempo em que faz-se a história faz-se parte dela, não há porta por onde se saia”

Acordo assustado. O pedaço de história que veio da escola estava ainda junto a mim, mas tão junto, tão perto da pele que eu não conseguia distinguir ao certo o que era corpo e o que era história… tive que sair de casa às pressas pois a história precisava tomar ar, já cheirava mal. Tive a impressão de que quem olhava-me na rua, não via-me, via algo entre mim e a história…

Ando apressado, preciso chegar a algum lugar que não sei qual, por isso ando pelas ruas. Ando e ando.

E a história começa a ficar pesada, já quase não consigo carrega-la sozinho. Percebo que a história não pode ser só minha, não pode ficar só comigo…

Encontro algumas pessoas que estão sentadas na rua, ajuntadas perto de um homem de pedra montado em um cavalo. Chego ao pé delas e digo com a boca torta, sem muito jeito (era a história já querendo sair para fora e passear pelo corpo daquelas pessoas):

– Quem entra na história?

As pessoas vão se aproximando. Minha voz vai se abrindo, já não sei o que digo, dou espaço para a história sair, e ela vai espalhando-se por entre aqueles que a ouvem. As primeiras palavras revelam estranhezas e frases bizarras formam-se. Aos poucos a estranheza não faz-se nos ouvidos dos que ouvem, passa logo para dentro das orelhas, bocas e narizes.

Já não vejo muito bem onde está a história. Fico completamente zonzo pois ao contar a história, continuo dentro dela. Só que agora ela vai fazendo-se por entre as pessoas e as coisas que estão ali, no caminho.

De repente, vejo que os braços daquele homem começam a tencionar-se, os dedos enrolam-se, os dentes mostram-se, a barriga encolhe-se para dentro, o sangue ferve e a pele avermelha-se – um riso de bruxa solta-se pelo ar… a praça fica suspensa. Os outros que estavam lá abraçam-se assustados. As pernas ficam mais finas, e os peitos incham-se, os olhos viram-se para cada lado da cara… parecem que as galinhas aprisionadas pela rainha má vieram também…

No meio desse turbilhão, já estou muito baralhado, sem saber o que é história e o que não é, começo a somente conseguir lembrar daquele sonho, havia um segredo escrito que era mais ou menos assim: enquanto tudo move-se nada resolve-se, nada justifica-se ou explica-se. Deixe ser o que seja, a história continua-se mesmo que o olho não a veja!

Quando dou por mim, percebo que as pessoas já estão retomando o estado em que encontravam-se antes de serem atravessadas por aquele pedaço de história, até já parecem-se com elas mesmas, consigo até chamar o Pedro de Pedro, a Sofia de Sofia e a Margarida de Guida! O pedaço de história se junta a mim – não sei bem como, pois não o guardei, não o prendi – e agora está um bocado diferente, mas continua a ser, até se mexe que eu bem sinto… vou andando pois história que é história não para, sempre caminha.

Lyncoln

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.