Paixão e Spinoza

“Se a Ética e a Moral se contentassem em interpretar os mesmos preceitos, a sua distinção seria somente teórica. Mas isso não acontece. Espinoza, ao longo de toda a obra, não cessa de denunciar três espécies de personagens: o homem das paixões tristes; o homem que explora estas paixões tristes, que delas necessita para estabelecer o seu poder; e, por último, o homem que se entristece com a condição humana e com as paixões em geral (que tanto pode zombar como indignar-se, mas não deixando a própria zombaria de ser um mau riso). Trata-se do escravo, do tirano, e do sacerdote. Jamais, depois de Epicuro e de Lucrécio, se mostrou melhor o vínculo profundo e implícito existente entre os tiranos e os escravos: “O grande segredo do regime monárquico, e o seu interesse profundo, consiste em enganar os homens, disfarçando sobre o nome da religião, o temor a que se quer sujeitá-los; e de tal modo que estes combatem pela sua servidão como se tratasse da sua salvação”. É que a paixão triste é um complexo que reúne o infinito dos desejos e a confusão da alma, a concupiscência e a superstição. “Os mais zelosos em abraçar qualquer espécie de superstição são inevitavelmente os que mais imoderadamente desejam os bens exteriores”. O tirano necessita da tristeza das almas para triunfar, tal como as almas tristes necessitam de um tirano para se acolherem e propagarem. O que de qualquer modo os une é o ódio à vida, o ressentimento contra a vida, Em Espinoza há efetivamente uma filosofia da “vida”: ela consiste precisamente em denunciar tudo o que nos separa da vida, todos os valores transcendentes que se orientam contra a vida, unidos às condições e às ilusões da nossa consciência. A vida está pervertida pelas categorias do Bem e do Mal, da falta de mérito, do pecado e do perdão. O que perverte a vida é o ódio, inclusivamente o ódio a si mesmo, a culpabilidade. Espinoza segue passo a passo o terrível encadeamento das paixões tristes: em primeiro lugar a própria tristeza, a seguir o ódio, a aversão, o escárnio, o temor, o desespero, o morsus conscientae, a piedade, a indignação, a inveja, a humilhação, a vergonha, o desgosto, a cólera, a vingança, a crueldade… A sua análise vai tão longe que até na esperança e na segurança, acaba por encontrar esse grãozinho de tristeza que as converte em sentimentos de escravos. A verdadeira cidade deve então propor aos cidadãos o amor da liberdade mais do que a esperança das recompensas ou mesmo a segurança dos bens uma vez que “é aos escravos e não aos homens livres que se dão recompensas pela sua boa conduta”. Espinoza não é, em suma, daqueles que pensam que uma paixão triste tem algo de bom. Muito antes de Nietzche, ele denuncia todas as falsificações da vida, todos os valores em nome dos quais depreciamos a vida: nós, rigorosamente, não vivemos; mantemos apenas uma aparência de vida, apenas pensamos em evitar a morte, e toda a nossa vida é um culto da morte.”

Esta crítica das paixões tristes está profundamente enraizada na teoria das afeções. Um individuo é antes de mais uma essência singular, um grau de potência. A essa essência corresponde uma relação característica; a esse grau de potência corresponde um certo poder de ser afetado. (…) O poder de ser afetado apresenta-se então como potência de agir, quando se supõe preenchido por afeções ativas, e apresenta-se como potência de padecer, quando é ocupado pelas paixões. Para um mesmo indivíduo, isto é, para um mesmo grau de potência que se supõe constante em certos limites, o poder de ser afetado permanece constante nesses mesmos limites; mas a potência de agir e a potência de padecer variam uma e outra, profundamente e em razão inversa.

É necessário distinguir não somente as ações e as paixões, mas duas espécies de paixões. O próprio da paixão, em qualquer caso, consiste em preencher o nosso poder de sermos afetados separando-nos da nossa potência de agir, mantendo-nos separados desta potência. Porém, quando encontramos um corpo exterior que não concorda com o nosso (isto é, cuja a relação não se compõe com a nossa) tudo ocorre como se a potência desse corpo se opusesse à nossa potência, operando uma subtração, uma fixação: dizemos nesse caso que a nossa potência de agir é diminuída ou impedida, e que as paixões correspondentes são de tristeza. Pelo contrário, quando encontramos um corpo que convém com a nossa natureza, e cuja a relação se compõe com a nossa, dizemos que a sus potência se adiciona à nossa: as paixões que nos afetam são então de alegria (aumenta ou é favorecida a nossa potência de agir). Esta alegria é ainda uma paixão, dado que tem uma causa exterior: permanecemos ainda separados da nossa potência de agir, não a possuímos formalmente. Esta potência de agir, contudo, não deixa por isso de aumentar proporcionalmente; “aproximamo-nos” do ponto de conversão, do ponto de transmutação que nos tornará senhores dela, e por isso dignos de ação, de alegrias ativas.

É o conjunto desta teoria das afetações que dá conta do estatuto das paixões tristes. Sejam elas quais forem, justifiquem-se como se justificarem, representa, sempre o grau mais baixo da nossa potência: o momento em que estamos ao máximo da nossa potência de agir, altamente alienados, entregues aos fantasmas da superstição e às mistificações do tirano. A Ética é necessariamente uma ética da alegria: somente a alegria é válida, apenas a alegria permanece e nos aproxima da ação. A paixão triste ao contrário, é sempre impotência. Será este, então o tríplice problema da Ética: Como chegar ao máximo das paixões alegres, e, a partir daí, como passar aos sentimentos livres ativos (quando o nosso lugar na natureza parece condenar-nos aos maus encontros e às tristezas)? Como lograr formar ideias adequadas, de onde derivam, precisamente, os sentimentos ativos (quando a nossa condição natural parece condenar-nos a não ter do nosso espírito e das outras coisas, senão ideias inadequadas)? Como chegar a ser consciente de si mesmo, de Deus e das coisas (quando a nossa consciência parece inseparáveis das ilusões)?(…)

 

Gilles Deleuze, Spinoza e Todos Os Outros

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