à espera que a roupa seque

assim que acordo, olho com prazer para as paredes brancas de cal, as formas dos umbrais das portas e janelas, do jogo de luz sombra, das placas amovíveis de papel de arroz. Oiço os sons desse início (ou meio, depende) do dia. Cheiro o ar. Subo para accionar a máquina de café, na realidade cevada. E sempre me perco a olhar para o terreno. O lá em cima é um telheiro fechado com vidro e ferro de forma que tenho uma vista de quase 360º. Volto para vestir roupa de rua/campo, abrir a porta da rua, única ventilação daquilo a que chamo sala. Na realidade não existem portas na casa, o que a divide são os 3 níveis, separados por degraus altos. E o nível mais baixo não tem janela. Tem uma entrada de luz no teto, feita por uma telha de vidro. Espreito o Largo, a ver se as vizinhas dão sinal de vida e piro-me para cima para tomar o pequeno almoço. O tareco (gato amarelo de uma vizinha) caça. Fico fascinada. Os pássaros, de variadíssimas especies que não me esforço por identificar, comem-me animadamente as sementes que lancei no dia anterior e os pequenos frutos que as plantas vão dando. Fico enternecida e também preocupada. Lá se vai mais uma sementeira. E colheita. Lá vão aparecer calendulas, rúculas e manjericão nos sítios mais improváveis, espalhadas por onde não era suposto. De caneca fumegante na mão, dou uma volta para ver de perto o que acontece e o que é urgente fazer. Vejo o pessego-bébé. Dou com uma ninhada de gatos no meio dos coentros, o endro está denso de mais, a amendoeira teima em não rebentar, os alecrins ao alto do terreno apresentam alguma preocupação, assim com as alfazemas, em verdes muito distintos. Os aloés que pareciam ter morrido queimados pelas geadas rigorosas, rebentam nos caules, o maracujeiro deu uma flor (são tão bonitas!), o jasmim lá vai resistindo, o linho está mais viçoso nuns lugares que noutros, mas ainda não floriu. Urge replantar a rúcula. Encontro um balde de azeitonas colhidas em novembro e que já devia ter temperado. Provo uma por entre uma nanha nojenta. Estão boas. Preciso de as passar por água e temperá-las. Volto e entrar em casa. Pego no livro que ando a ler (têm sido russos) e vou beber um café ao Rossio. Troco umas lérias aqui e ali tanto na ida, como na vinda, ralho com o Tico, um mini cão da vizinha, insisto para que volte para casa.

Lá vou de enxada na mão. Primeiro voltar a dar uma cavadela no terreno para transplantar a rúcula. As ervas já querem tomar conta dele outra vez. Aliás nesta semana as ervas tomaram conta de muita coisa. E as pedras voltaram a aparecer…. Oiço a voz da minha irmã a dizer sabes que aqui tudo é precioso até as pedras. Era com elas que construíam as casas. Duas placas de madeira ao alto na terra, que se enchiam de pedras e terra, deixava-se secar bem e de seguida tiram-se as tábuas e fazia-se mais um pouco. Eu pessoalmente uso-as para delimitar espaços, fazer regos, mudar cursos de água e pequenos muros de sustentação das terras bastante inclinadas aqui.
Também as ervas são importantes, mesmo as mais resistentes ou sobretudo essas… Amontoam-se e deixa-se transformar em terra e os ingredientes dessa sua resistência vão fortalecer as outras…

mais do que domesticar terra e plantas, tenho vindo a experenciar o potencializar aquilo que existe, seja lá no estado que for, procurando a forma de intervir aqui e ali. Mais do que uma vontade, é uma sensação… O fermento do pão, a partir de uma receita na net, mas que pouco a pouco vou entendendo á minha maneira, assim como o amassar aprendido com as vizinhas, já a minha mãe dizia, amassa-se com o corpo, são coisas que vou fazendo e fazendo, e mais do que uma razão, há a sensação… a minha temperatura, o meu cheiro, o cair da enxada, a sequência da lenha para atear o fogo, todas fazemos ligeiramente diferente e todas vamos aprendendo sempre  o lume é como as mulheres, não gosta de ser muito mexido,
A decomposição, se é que se pode chamar assim fascina-me. Pouco a pouco consigo passar para o meu corpo, para a minha forma de estar, aquela imagem que tanto gosto das pessoas sentadas à espera que a roupa seque, esse tempo sem ocupação e que não tem hora marcada, e que forçosamente nos pede disponibilidade, o pão a fermentar, as cinzas a transformarem-se em base de sabão, as ervas em terra, as estacas a criar raiz e a produzir uma nova planta…
Volto a reler o que escrevi e hesito.. não será talvez escritivel… não me inspira poesia, ou vontade de criar, não me traz questões profundas.
perguntava-me a helena hoje: tu não tens fotografado, gravado, filmado ou desenhado, pois não? Pois, não tenho. Não tenho sentido essa urgência, essa vontade…
No trabalho com as senhoras, é como continuar essa sensação, é potencializar aquilo que vibra, mas tambem o que se decompõe. É um trabalho cheio de esperar que a roupa seque; é um trabalho que não entendemos, um trabalho sempre a ser atravessado pelos netos que não podem ficar em casa sozinhos e que acabam por ser incluídos nos espectáculo, que se transforma cada vez mais nesse tempo de espera que a roupa seque.
Tive a urgência de escrever isto, no intervalo que a (bem haja!) chuva  me obrigou a fazer…

Vou comer as favas que a vizinha me deu (bem haja! ela também!)

Post scriptum

Engraçado que, estes tempo que invalidam compromissos à hora certa, vá-se lá saber a que horas é que a roupa está seca!, me fazem lembrar quando estou a montar som (ou vídeo). Começo com um objectivo, e de repente é o som que comanda e dou por mim a seguir algo que me escapa e acordo altas horas da madrugada, com os “rinzes” feitos num 8, os ouvidos a suar, azamboada, apardalada, a-qqc…

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.