a deformação do senhor casimiro e as políticas de crescimento económico

chego ao mercado da ribeira para iniciar a rota. está o lyncoln a pendurar o novo jornalinho e um senhor fardado muito hirto a pedir autorizações para estas instalações que fazemos cada semana.
é o senhor casimiro-fiscal. tenho visto isto que vocês fazem aqui todas as semanas e preciso que saber quem deu autorização para passarem os filmes e porem as fotografias e as cadeiras por aqui, é que estão a alterar a passagem das pessoas que aqui vêm (não vê, aquela senhora já vai ter que dar aquela volta por causa disto) e não se pode estar assim no espaço sem uma autorização, quem é o responsável?.mmmmmmmmmm responsável…temos aqui a fanzine escrita a várias mãos, tem um espaço para alguma coisa que alguém queira dizer. eles não fazem mal a ninguém, diz a senhora dos ovos, eu sei que não fazem, até vêm pr’áqui com os miúdos e eu vejo a brincadeira, mas e as autorizações? entretanto a senhora que tinha que tinha que dar “aquela volta”por causa das instalações no espaço já estava de conversa com os textos na mão a explicar ao marido cego o que via com um grande sorriso, bem hajam, obrigada. a conversa nem passou muito por justificativas, que sim que temos conversado com pessoas “responsáveis” da cml e que até pode ser que tenhamos uma das lojitas abandonadas do mercado para deixar alguma documentação de uns dias para os outros. mas o mais impressionante é a ternura que vai aparecendo no corpo do sr.casimiro, a mancha de conversa que se estende pelos acenos dos vendedores”bom dia, já cá estão hoje? vieram mais cedo!” a dissolução de uma entrada de poder, de um acesso sobre o que se pode e o que não se pode quando o que se pode-não pode vem ditado por regras exteriores à tua própria apreciação do momento…dizia eu, a dissolução de uma entrada de poder para uma ampliação do estar que dilata os olhos, o coração, sossega a voz e devolve a clareza do que cada um é e do que cada um faz. o sr.casimiro levou o jornal e mais uns abraços do jp que não passa sem se apresentar e abraçar. sinto que guardou consigo mais do isso. passada uma hora já não estávamos lá mas as linhas de afecto continuam no ar.
trabalhar a esperança, foi a ultima frase dele antes de seguir a sua ronda.
estou aqui escrevendo enquanto os políticos criticam na televisão a falta de confiança e de autoestima dos portugueses, os grandes exemplos são o cristiano ronaldo e o josé mourinho, apostam na criatividade e na inovação, apostam no crescimento…mas no crescimento do quê? da tristeza? do sentir que ser alguém “realizado” é ser rico? que aquilo que tu crias só pode ser reconhecido em euros? que “ser alguém” é corresponder a um modelo de reconhecimento pré-definido e ir tentando jogar dentro dessa casca?
a mudança de paradigma tão abusadamente falada não implica também ouvir a deformação? precisamos ser mais produtivos para vender mais para comprar mais…é isso que somos? peças de uma máquina abstracta de compra e venda? o jp tem síndrome down, não se encaixa na máquina, é um peso morto no crescimento económico mas desconfio que os abraços dele são muito mais férteis e alimentadores do que o que compras no super mercado para garantir o abastecimento semanal.
acumular riquezas e perder a afinação de ser quem vou sendo…não quero isso para mim.
andré meu filho perguntava no outro dia num dos nosso jantarinhos com velas e muitas conversas, então tu podias ter sido rica, podíamos viver agora numa mansão? e eu lembro-me de algumas encruzilhadas na minha vida em que passei por possibilidades que me poderiam levar aí…mas não posso, não é que não consiga, é que não posso, aquilo que vou sendo não se configura numa concretude que possa seguir aí. agora posso esticar o braço agora não posso esticar o braço. conseguir consigo sempre, mas posso? afinada com quem vou sendo, posso?
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.