caminhos

esta praça traz-me passado e inverno: as árvores nuas, os candeeiros, a igreja e o quiosque verde, tudo converge e concorda para algo que já foi mas que (ainda assim) continua sendo, aqui neste presente de agora.

como são diferentes as pessoas dos bancos de jardins das dos bancos de pedra. uma mulher sentada à minha frente do outro lado, com os dois braços apoiados numa muleta só, três homens de negócios (imagino eu) sentados numa mesa. como há todo um conjunto de sinais que de alguma maneira me permite imaginar de onde vêm estas pessoas. um velho de roupas velhas com um saco de plástico passa devagar por mim, e no banco ao lado do da mulher sozinha um homem e mais uma mulher sentados em silêncio olhando em frente; todos olham em frente. o silêncio dos bancos de pedra, as conversas do café.
e a paisagem agora mudou: chega mais uma mulher que se senta com uma garrafa de água ao lado da dupla do segundo banco, e começam a falar- as vozes deles chegam até aqui, e vejo os lábios moverem-se. imagino que pessoas do bairro.
chega um outro homem de mota, fato e gravata, que a estaciona na beira da praça; algumas pessoas em trânsito: homens que trabalham nas obras, outros mais velhos, o homem da mota que atravessa a rua para o outro lado, uma mulher de saltos altos que passa atrás de mim.
o senhor fecha o quiosque (imagino que seja do século XVIII ou XIX) que eu vejo quase sempre fechado, coberto da necessidade de alguéns de marcar espaço com assinaturas. um fotógrafo capta a imagem do quiosque- secalhar até foi para isso que o fecharam agora-, compõe com um jornal “a bola” no fundo verde; “ataque” é a única palavra que vejo daqui.
os muitos pombos vão passeando, voando baixo, debicando coisas das fissuras entre as pedras, debicando coisas dentre as penas, pombos que não páram… como nós de facto, mão que afaga o cabelo, perna que cruza sobre a outra, mãos que descrevem gestos no mesmo tempo da boca que articula sons, cabeça que se volta para ver de onde vem tal barulho, pernas caminhando, uma mão que coça um braço,…
os copos de cerveja estão quase no final, os três homens de negócios já partiram e ocupam a mesa outros três mais novos, talvez estudantes.
uma rapariga estrangeira atravessa agora a praça com uma mala de rodinhas. “3kg de coca, 3 kg de heroína” e viro a cabeça para ver quem o disse, curiosidades… a mulher que tocava o cabelo lê e vejo-a parada de costas.
as diferentes velocidades que cohabitam nos corpos. movimento dos olhos, do pensamento, da respiração, do sangue, do caminhar, da voz, o crescimento do cabelo, da temperatura…
à minha frente está agora um homem com pão nas mãos pronto para o comer. vai cortando o pão com a faca, abre a casca da banana e despe-a, corta um bocado e come-o.
volto ao homem, que continua a comer a banana que vai diminuindo de tamanho, pedaço a pedaço.
muito perto de mim uma data de bichinhos com asas que se vão colando à minha pele.
foi-se a banana, e ele agora partilha com os pombos um bocado de pão e observa-os a comer como eu o observei.
como é desconfortável às vezes ser-se olhado- ou melhor, saber que se é olhado. é como se tomasse consciência de mim e dos meus gestos inconscientes e de repente já não sei onde pôr as mãos, ou os olhos.
o homem foi-se embora.
 mariana

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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