ai mouraria

dona lurdes tem grande dificuldade em andar, se não fosse o antónio a trazê-la ao centro de dia nem saía mais de casa. o beco do jasmim transita para este sonho de o verem aplanado e arrumado com mesas e cadeiras. aquele bizarro morro vertiginoso, palco de tanta brincadeira, vai ser exactamente o mesmo, mas em plano, ligeiramente inclinado…a vizinha diz que desde que começaram as obras toda a rua se fez mais vertical, o miúdo filho do paulo não quer passar por ali para não estragar os sapatos novos. não me interessa contribuir para as queixas de que estava mau dantes e também está mau agora e estará pior depois mas, para variar, para alem de ter dúvidas sobre algumas das ideias de alteração ou “melhoramento” do espaço público, tenho muito desassossego com a falta de atenção no “durante”.
vir com dona lurdes desde lá de cima do coro no centro de dia da rosa até ao beco do jasmim é mais um desafio radical. ela até se ri do absurdo que é poisar os pés inchados e doloridos por entre pedregulhos soltos, saltar por cima de buracos, subir e descer montes de areia que tapam as entradas das casas.
ainda há pouco quando cantávamos ela dizia que não podia nem levantar uma perna e agora vem tropeçando por entre os escombros, testando uma agilidade que julga desaparecida. que mouraria virá aí? é impressionante como cada um se compõe em torno de todo este caos provisório com a esperança de algo melhor que aí apareça.
os mourariantes atravessam dia a dia as vidas complicadas mas não refilam mais do que sempre refilaram, adaptam-se com uma velocidade incrível. muitos são gente teimosa e de sangue quente, com um grito brusco sempre à borda da boca, mas a generosidade com que se compõem com a mudança é muito forte. parece-me um lugar sem carinho por si próprio mas pronto para um sonho de ser feliz.
se falarem disso, de ser feliz, não acreditam, mas na teimosia de estar vivo, no sorriso que deixam escapar, no abraço saudoso com que me esperam de cada vez….mmmmmmmmmmmm….desconfio que acreditam sim…que a felicidade é essa possibilidade de continuar caminhando mesmo quando tudo parece empedragulhado. eu acredito nestas micro aventuras, nestes micro acontecimentos, nestas micro-pessoas que somos.
é como quando vemos nascer um verso ou uma melodia, lá em cima no coro. como se faz canção algo que parecia coisa nenhuma?
sofia
olha tu, que estás em casa
pela noitinha a escrever
chega cá a tua asa
que também me quero perder
esvoaço pr’a nenhum lado
encontro lugar nenhum
mas no voar trago o fado
deste encontro 1 a 1
sinto nos olhos teu passo
a meu lado, abraçado
sei que é contigo que faço
ficar leve o que é pesado

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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