reticências…. (rota 9)

Saio de casa adoentada e sigo ziguezagueando pelo Bairro Alto (descobri uma forma de nunca subir e descer) direita à estação do Rossio, atravesso o Rossio, a Praça da Figueira, o Martim Moniz direitinha ao Chafariz do Bemformoso. Assim que entro nesta zona da cidade, lembro-me do beat que fizemos com as velhas da Rosa: hoje só se ouve por lá dos indianos a vozinha ( http://soundcloud.com/projetotoca/d-celeste-beat ). Faço a minha benzedura celta ao espaço e todo o meu corpo se prepara para esta viagem. Troco umas lérias com o Sr. Carlos, o nosso engenhocas residente e escorregadio que nem uma enguia. Chega a restante tripulação desta viagem, assim como os primeiros passageiros, mas o meu corpo já começou a passagem para a próxima suspensão e sigo via Associação Republicana para as escadinhas da saúde. Tantas memórias, tantos ecos aqui… mais uma benzedura enquanto o corpo se tece desses fios. Desta vez parece uma teia pegajosa que vai retendo alguns ecos e faz vibrar toda a teia e ocorre-me escrever: a estrutura permite a forma, não a define. Epifania! Interessante que os sintomas de mal-estar estão a passar. Esta é uma viagem que tem muito de subjectividade colectiva. Todos nos preparamos para ela. E de repente o corpo entorna-se e cruzo a estrada e a parte sul do Martim Moniz escorrendo pela ruela em meia-lua atrás da Igreja, escorro pelo Largo de S. Domingos em direcção ao passeio da esquerda do Rossio. Segue-se uma sensação única que me vai destecendo e nesse destecer consigo acompanhar tudo que se passa à minha volta. Não me canso, não faço esforço, é assim… leve, transparente. Nada escapa, mas não trago nada comigo. Desemboco no Terreiro do Paço, à espera daquela sensação de me desintegrar, mas o corpo lembra-se do susto do outro dia e é cauteloso. Não acontece nada, a expectativa fez-me sair desse destecer gostoso e leve. Consigo mesmo assim, atravessar parte deste terreiro de olhos fechados e a ver, a ver, a ver…

A brisa marítima é inevitável, se bem que muito suja… Alguém dorme na praia. Bons sonhos…  Não o vou  incluir na benzedura… e aqui as marés desenham a mesma meia lua da ruela atrás da Igreja há muito tempo atrás… A praia começa a popular-se. O som gostoso do vozear ao pé do mar… as ondas leves, as cores. Mas há algo que não nos deixa esquecer o perigo que representa a aglomeração excessiva, há sempre uma ferida que pulsa, que repugna. Admira-me que tanta gente venha para aqui relaxar… Mas entre a tripulação e os passageiros, a atmosfera é de piquenique, de alegria serena, repouso… Deixo-me contagiar, brinco, converso, como… e começo a sentir o deslizar, o escorregar para a próxima suspensão, travessa do cotovelo, passando pelos (hoje ausentes) sem abrigo e o cheirinho da árvore da esquina em flor. Suspendo na travessa do cotovelo que pede uma estadia maior, que esta benzedura… e sigo roçando os prédios, carros, autocarros, eletricos, o cheiro da padaria e a espiral da Praça, também ela a pedir que fique… e sigo por entre os carros levando aquela sensação de espiral da praça até à Praça da Ribeira. E é o relaxar dos sentidos todos, soltar a percepção, é um lugar que me é harmonioso, amplo e humano ao mesmo tempo. Cheio de ecos, memórias e também espaços vazios que apetece ocupar. Vejo o Nelson, grito de alegria. O grito aqui é possível. Aqui trabalho e brincadeira, o jogo no seu melhor… aparece o giz, os fios, os cd a rolar. Deixo este espaço no auge da ocupação, reencontro a espiral no Largo de S. Paulo, visito a Igreja, sigo por trás do elevador da Bica para o Largo de S. João de Nepomuceno (que raio de nome!). Teclando esta viagem passadas que são 3 semanas, parecia-me o fim, mas não. Não mesmo. Mergulhámos pelas escadinhas do mesmo nome, e olhem que é mesmo um grande mergulho, suspendemos ligeiramente em frente ao seu Vicente e esse corpo colectivo entornou-se para o lado de Belém… mas isso é outra história.

Ah! é verdade… nem vestígios de gripe ou qualquer outro mal-estar.Imagem

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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