abrir espaço de não saber

nona rota ou anonarrota. quando a palavra corpo se faz matéria ela nunca se reduz no significado, pode ser o que for, é a própria palavra-som-forma  que vai passeando por entre os corpos que aparecem. quando digo o meu corpo, ainda é mais misterioso o caminho que trouxe essa expressão ao ar, que meu corpo será esse? que corpo se faz corpo enquanto outros corpos se fazem corpos? tantos corpos-pedra aparecem quando não me aperto em perceber o que vejo. já lá estavam? não quero responder. brinco com a pergunta como quem segura água na concha da mão. não quero agarrar. lembro-me de  há uns 10 anos ter escrevinhado que as memórias estão na poeira do ar, que não são minhas ou tuas. eu permito-me dançar com elas, ser elas não sendo. assim o “lembrar” que o ano passado eu chamava ”não-esquecer”, também não é meu, eu não tenho nada, não possuo nada. vejo agora que “não-esquecer” me aparece como não me reduzir a uma ideia infeliz de humano finito. não tenho que lembrar porque nunca esqueço, mas esta memória do que foi ou do que será nunca é propriedade minha, o corpo que vou sendo expande-se e encolhe e vai integrando esse amor de existir. tenho o mercado da ribeira aberto na barriga, o espaço aberto. aberto aberto aberto aberto. não te vou contar como foi a rota. posso largar palavras tortas mas não posso dizer como foi, não foi, está sendo, está no ar, sai tu desse lugar morto de comer em segunda mão. vê sem ver, cria sem matar, conhece sem saber, alenta essa ansiedade de resolver. confia nos olhos do bicho, da pedra, da onda. rasga a crosta que te tapa o ser. não sejas.
num desses trágicos encontros moles entre mortos-vivos e à sombra da construção de uma réplica de caravela por altura da expo 90 e não sei quê, alguém dizia :é impressionante como em 50 anos os portugueses se esqueceram de como se constroem barcos. se eu tivesse queixo tinha-me caído. tinham posto fibra de vidro em vez de…e tinham feito o mastro não sei como em vez de…mas então e ouvir? ouvir quem existe a teu lado? então e ouvir o saber do ar? o saber das mãos que constroem barcos? o saber dos barcos? então e largar essa ditadura de viver morto como se só tu soubesses o que há para saber, como se pudesse haver algum corpo sozinho, como se tudo existisse à medida da tua ínfima ideia de ti próprio.
este mundo doente quer fazer-se continuar sabendo-se acabado. não sei o que é felicidade mas posso escutar em mim a infiniteza da barriga-mercado da ribeira e do quanto esse pulsar tempestuoso me trás nascimento à pele ou aos sonhos ou ao acreditar.
lamento o desassossego para quem se quer estagnado mas encontro nos corpos que se fazem corpos uma inclinação para a felicidade.
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

Um Comentário

  1. i want to have the worlds walking in me stesso

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