entre o intendente e o beco da amendoeira

a roupa também é corpo. andamos a inventar uma roupa desenhada a partir da vivencia nestas mourarias. cada terça feira a amália costureira vem fazer a minha aula da manhã ouvindo o corpo atentamente e depois largamos atrás das pernas rua fora, conversando, escrevendo, abrindo um lugar que ainda não existe mas que só existirá se for assim ajardinado gota a gota. já andamos nisto há uns meses e vão surgindo detalhes engraçados. o vestido deste lugar vai ter que ter rugas. vai ter esquinas com surpresas. vai ter relevos. tem que ser absurdo. será mais simples por fora e complexo por dentro. o colorido terá que vir do interior. vejo-o esburacado. talvez renda. como será não sabemos. convidámos o filipe faísca para desenhar esse vestido à sombra do que vamos levantando e dos seus próprios passeios pelos lugares.
esta terça passámos a manhã com a rosa da lavandaria. pego naquele ferro pesado e ponho-me a passar toalhas enquanto lançamos ao ar desenhos esquisitos para experimentar em renda no próximo encontro. o lyncoln e a margarida conversam sentados à porta, lá fora a rua está um caos, entra o sábio. querem esta coleira para cães? isqueiros? deixa cá ver. a amália fica com a coleira, um mimo para um dos 20 animais que lá tem em casa e para o felismino que vai ficar todo contente com a prenda já que tem sempre a mulher a passear por aí connosco. carrego no pedal e a tábua de engomar incha de vapor, estico as rugas à mão. uma sinfonia de sons muito curiosa entre as risotas, a gritaria lá fora, os guinchos da máquina, os suspiros do vapor e aquele cheiro a roupa lavada amontoada pelos cantos. a lavandaria foi crescendo à medida que a manhã passava, para a próxima vimos aí uns 15, com  prática de ampliar lugares apertados caberemos todos a costurar por aqui. a rosa vai dizer à miúda que quer fazer roupa para cães para vir também, vamos afinando isso de costurar juntas.
até amanhã. é a mãe dela que vai subir para o almoço. vamos nós também rumo ao beco da amendoeira. o sol já levantou a névoa da manhã. estes dias têm acordado com nevoeiro denso, está a virar o tempo.
a dona helena está sentadinha a aquecer-se. é uma pena este rapaz andar aqui nisto, é filho ali da da peixaria e bom moço, mas anda nisto e às vezes avaria. ai as minhas pernas. uma história, um reparo e 50 palavrões, língua desatada. faço-lhe uma massagem. ai que bom! isto é que é vida! tem as pernas muito bem torneadas, lembram-me as da minha avó. que lindas pernas dona helena. mais um bocadinho e subimos para o almocinho em casa da amália. é uma delicia este final de manhã de volta dos facalhões do felismino, grande cozinheiro. todos os dias aprendemos mais qualquer coisa da arte de cozinhar. hoje era o limão no refugado de couve que lhe corta o doce. o jeito do corte sobre a tábua. chegam sempre convidados que se fazem à mesa. cabem sempre, há sempre comida para quem vem almoçar. sempre. este vestido da mouraria vai ter que ter um sempre qualquer.
um dia podíamos fazer aqui um português clandestino, íamos ali à rua pescar a clientela e fazíamos aqui um negócio…talvez da china…
então e já viram os pilaretes aqui da marquês de ponte lima, à esquerda de quem sobe? mas quem é que passa ali? aquela talvez passe que é magrinha mas eu tenho que me encostar todo de lado à parede e mesmo assim vou esmagado.
aquilo é para quem é cego, ou anda de muletas, ou vem de carro de bebé ter que se fazer ao meio da estrada, ali é que está uma coisa bem feita! por mais que dê voltas à cabeça não consigo perceber o que estão a pensar quando fazem uma porcaria assim. também o mais certo agora com a rua assim é voltarmos a ter os aceleras a descer à força e a espetarem-se ali à frente na esquina, é cá uma esperteza. do outro lado da mesa a conversa vai entrando pelos santos populares, tudo na rua a comer sardinhas à da cristina no largo da guia e a polícia a mandar parar a festa. também não sei para quê! se não acabam com o barulho levo-os para a esquadra. e vamos todos homem! levamos o resto do tintol e continuamos lá  a festa! e a polícia dispersa, não vai levar 50 mouros para a esquadra!
vimos embora com o felismino enorme a rir e a passar rente á parede  por detrás dos pilaretes da marquês de ponte de lima. tenho que vir aqui escrever.
a não perder no próximo episódio: os pilaretes!
terá pilaretes o nosso vestido filipe?
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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