cortar

hoje as batatas cortaram-se devagar. a mania de animar cria ali um impasse à chegada que é como se cada pessoa tivesse que se ver envolvida na acção, como se eu que estou triste tivesse que fazer-me alegre ou eu que quero silêncio tivesse que desatar a falar para não estragar o “convívio”. como se o senhor alexandre que já não tem mãos para segurar a faca não fosse tão importante ali na roda só a contemplar, a entrar e sair da conversa, a sorrir. fico muito impressionada como atravessamento diário dessa membrana espessa de “como me devo relacionar com isto”. é impressionante o caminho que cada um de nós vai fazendo para se permitir aproximar do círculo e partilhar histórias, descascar batatas, deixar-se dormitar. e aquela força sem esforço que vai tecendo as relações entre cada uma e cada um e densificando o corpo. uma ternura imensa caminhar em nós próprios sem nos exigirmos a animação. há uma expansão sim, uma descompressão dos tecidos. uma sensação mais de fundo, mais permanente, que vai levantando essa espessa membrana de “como devo relacionar-me com isto” que o dia a dia tende a inscrever e trazendo a confiança em ser quem vais sendo. uns assim, outros assado, uns mais rápidos outros parados, uns ensinando outro ouvindo. e o que é curioso é que as batatas ficam mesmo cortadas e a bina já pode fazer a sua sopinha.
mesmo à saída, quando o almoço já os esperava na sala do fundo, chega o helder, o homem da guitarra do coro rosa velho(os nossos encontros da quinta feira à tarde). estava escondido atrás da porta atrasando a entrada. traz os olhos cavados maiores que o corpo. de um lado e outro da cara dois fundos cortes. fui assaltado no sábado ali nos anjos. queriam dinheiro e eu não tinha. cortar a cara? cortar a cara? nem sei se é tristeza o que lhe sinto na pele, o que sinto em mim…é uma absurdo forte. mas o que quiser de mim diga. não preciso de nada, helder, obrigada. talvez te apeteça vir connosco andar por lisboa esta sexta feira, saímos ás 10 da manhã. quero sim. acertamos tudo na quinta quando viermos ao coro. combinado. cortar a cara? duas vezes? aqueles sulcos ficarão para sempre inscritos…mas não fica aí, continua. já compõe a sua vida em torno deste novo helder de cara cortada.
às vezes eu precisava que o tempo abrisse tempo para chorar.
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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