alda, lídia, a travessa do cotovelo e o contador de escadas

vimos andando pela rua do arsenal rumo ao cais do sodré e ali à direita delicio-me com esta aldeia anixada na esquina. muita fruta, bacalhau, duas mulheres sorridentes, a alda e a lídia, duas periquitas sem nome, a sandra e a sónia, música na rádio, beco ensolarado que se chama cotovelo como quem afasta mas mais parece um abraço com quem acolhe. foi aqui que deixei a cadeira catarina, pequenina de pinho pintado de amarelo, a cadeira que deixou de ser rainha do rabo do meu filho andré e me pediu outras paragens. a alda anda a fazer umas cortinas para os louceiros da filha em linho e crochet diz a amália que é linha 12. parece que a cadeira catarina tem vindo cá fora passear durante a semana para uns deditos de conversa e de costura que isto agora há 3 anos que está deserto. não se passa nada neste cotovelo. deixa lá ver o que aí vem agora com as obras, é uma alegria ver-vos chegar diz a lídia, ganho logo o dia. a lídia é de cabo verde e o que mais gosta lá é a morabuza. morabuza, morabuza, morabuza. esse é o encanto daquele país que é um paraíso, a morabuza. é o quê a morabuza? é que já fiquei ali aflita com o nome daquelas peras gordas que me parece nome de cavalo com pelos compridos ou nome de mosqueteiro tipo d’artagnan. morabuza (gosto de escrever esta palavra, é uma palavra gulosa) é a convivência entre as pessoas, é o que vocês fazem aqui no vosso trabalho. a alda e a lídia são uma família, nada de patrão e funcionário, duas amigas. trabalharam juntas aí uns 20 anos ali mesmo à frente depois a lídia foi para cabo verde um tempo, tem que ser. quando era pequenina fazia teatro nas forças armadas, havia lá grupos de teatro. as passagens é que podiam ser mais baratas. de portugal conhece muitas paisagens, conhece os açores. os olhos da lídia são olhos de ilhas. vou entrar nos olhos dela para viajar também. assim que possa envio-lhe a morada deste texto porque a filha depois vai à net e lá nos reencontramos. alda ofereceu-me uma saquinha para alfazema costurada esta semana na cadeira catarina. muito terna. é sempre um desaperto este beco junto a elas. ginástica para as membranas do coração, se vinha sem espaço folga-se aqui!
estamos quase de saída, mas à volta da rua da boavista ainda aqui passo para um abraço, é o posto de reabastecimento de abraços que desapertam.
cada rota é sempre tão infinita. chego à noite cheia de camadas de poeira, corpo dorido, olhos muito abertos quentes de sono, uma velocidade vendaválica como quem experimenta ser livre.
há pouco, ou há 10 anos, estava sentada na rua da mouraria frente às eufemístias escadinhas da saúde. será saúde pelo exercício a que convidam, escadinhas ou escadonas intermináveis, também cá em baixo tem a farmácia mesmo ao lado da boca das escadas para o caso de quereres tratar da saúde antes com um comprimido. os vidros das montras são lavados todas as tardes mesmo antes de fechar, e eu que pensava que era para estarem limpos de manhã para durar todo o dia, afinal é mais à tarde-noite para sugerir alguma coisa que podemos vir a precisar de manhã, talvez emagrecer, rejuvenescer, limpar o colestrol ou uns pensos para os calos. então o que é que está aqui a fazer? este senhor era tão antipático o ano passado e agora aproxima-se nesta preocupação comigo. invenção imediata, estou a contar os degraus das escadinhas da saúde. faz bem, aí sentada ao solinho, faça assim: levante-se e levante bem as pernas, e ele levanta bem as pernas, mesmo à altura da bacia. e vá contando com os passos que dá, 1,2,3,4,5. alevante os joelhos para não enganar. e alevanto pois.então e nas plataformas como é que conto? não tem degraus. ah! mas nas partes a direito vai em passo normal. a descer é que depois temos que encontrar outra solução. que os degraus não são todos iguais e se vai assim com as pernas ao alto capaz de…também podemos chegar cá abaixo e triplicar a conta. pronto, aí é que o perdi de vez. triplicar a conta. bom. um bom dia para si.
diz que a lua agora parece um barco, uma tirinha fininha, os antigos diziam qualquer coisa disto, o ar está com tão pouca humidade, a maria aprendeu hoje a tirar macacos do nariz.
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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