notas sobre ajuntamentos na mouraria entre outubro e dezembro de 2011

3º ajuntamento na rua da mouraria e outras considerações que são a mesma,
ajuntar-afastar  densificar-volatilizar estar só-estar acompanhado escutar-agir
interessa-me algo que ouvi um dia agamben dizer e que com certeza já distorci para sofiez, algo como se o traço de ligação entre as duas palavras não as separasse mas antes as considerasse como sendo as duas uma. como posso ajuntar afastando, escutar agindo, densificar volatilizando, estar só estando acompanhada…
só andar e parar, só andar e parar, andar em frente e parar de maneira que possas partir em qualquer direcção.
quando te aproximas de alguém que pratica a vida de forma diversa da tua muito provavelmente tendes a congelá-la numa série de julgamentos. chegamos ao absurdo de espalhar a sete ventos que uma pessoa autista é alguém que não se relaciona fluidamente com o que a rodeia…curioso não percebermos que de facto ela não se relaciona de uma forma convencionada como aceitável com os outros seres humanos…mais um legado do antropocentrismo que não desiste de perfurar o que reconhecemos enquanto real. curioso que exactamente uma pessoa dita autista tenha uma tão grande capacidade de escuta a tudo o que a rodeia, seja animal, planta, vento, atmosfera…
deste ajuntamento de sexta, do princípio do trabalho de investigação a que chamámos “a sopa”, do estudo prático da membrana, grita-me a força da criação, a força de acreditar que é mesmo possível caminhar e criar outras ligações, outras passadas, outras formas de vida.
no outro dia disse “não sei o que é colectivo”, pois não sei….sei que tenho esta urgência de ajuntar e desajuntar, estar só e estar acompanhada, sei que não existo isolada e que me é insuportável o sufoco das inúmeras ideias de grupo que me aparecem, como se estar junto tivesse regras fixas de convivência que têm por objectivo apagar o brilho de cada partícula…não acredito nisso. sinto que tem que haver formas de estarcom que não se armadilhem no poder, no controlo, na submissão, na escravidão…o exercício do amor, da liberdade.
temos muito que aprender com estar lado a lado…não é frente a frente ou um atrás e outro à frente. é lado a lado…que com certeza…sendo movimento…terá muitas oscilações frente a frente ou um atrás e outro á frente….a deslocação, a passagem, o atravessar, está na consideração profunda do lado a lado.

4º ajuntamento na rua da mouraria
uma escada para lado nenhum.
quase que não é possível, quase que se torna demasiado absurdo e perde a possibilidade de esbater fronteiras entre um qualquer dentro e um qualquer fora.
levámos uma escada para o centro da quase-praça-ainda-rua da mouraria, um escadote. o convite era subir ao escadote e olhar para cima, ou olhar de cima para baixo. de facto é encantador colocar um objecto com uma função tão apertada e vê-lo libertar-se do aperto da utilidade.
confesso que desta vez quase pensei que não ia ser possível não se fechar o ajuntamento de pessoas-“artistas” em relação ao trânsito ou ajuntamento de quem passa ou mora por ali…mais uma vez surpreendi-me, houve quem subisse e não falasse português e fizesse sinal de agradecimento por ter subido e olhado a rua e as pessoas desde esta outra perspectiva, houve quem fizesse fila, ajudasse a segurar o escadote, ouve quem achasse estúpido quem achasse divertido mas nunca se criou a impossibilidade. a criançada passou em bando mais tarde do que de costume, tinham tido festa de são martinho,  e entre beijos, abraços e gargalhadas subiram, desceram, fizeram sugestões…finamente vão-se reforçando linhas de relação, não forçosamente com aquelas pessoas ou aqueles lugares mas com a possibilidade de reconfigurar relações com pessoas e lugares, não de nós para eles ou de eles para nós mas entre qualquer nós e qualquer eles, sendo que nós e eles somos os mesmos desde outras perspectivas.
na conversa para nada que se configura por ali logo a seguir a uma destas práticas alguém disse que era forte se estes ajuntamentos pudessem ter lugar noutras ruas, por outras partes da cidade porque esta já estava “aquecida” e, embora as pessoas que circulam venham de universos e culturas muito diversas, não se sente o gap entre elas…mais uma vez me espantei! nalgum momento alguém pôde ver que havia algo de outra natureza que não a separação…mesmo na mouraria. mmmmmmmmmmm mmmm m mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm       m mmmmmmm mm mmmm
5º ajuntamento na rua da mouraria
a intimidade do chapéu de chuva
vínhamos com a vontade de experimentar a prática de andar e parar desta vez com a introdução da espera. andar-parar-esperar. trouxemos as cadeiras do café já para a rua, para ir vendo como a prática de movimento se ia cruzando com a conversa para nada.
a chuva não desistia
estive um bom bocado lado a lado com um amigo, a praça ia-se empequenando e engrandando. conversas suaves sobre o fazer artístico enquanto pessoas cruzavam na corrida de passar entre os pingos.
eu sem chapéu de chuva, ele sem chapéu de chuva, às tantas larguei de boleia num chapéu que passou. aninhar-me no espaço de resguardo de alguém que não conheço trouxe uma brincadeira brilhante. aos poucos passava um que resguardava alguém atravessando a praça, “eu levo-o até ali”
uma com chapéu acompanha quem vai na chuva em segmentos de trajecto. outra sem chapéu entra no chapéu de alguém e percorre segmentos de trajecto. Segmentos de trajectos que começaram antes e continuam depois onde menos de um metro de diâmetro asseguram uma intimidade provisória.
perto-longe-perto-longe     o diâmetro do chapéu a reforçar a respiração do corpo.
sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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