duas sacas de batatas

começámos a vir aqui cortar batatas à segunda feira por causa da dona rosário, a avó. anda de lenço na cabeça e trança, olhos doces, blusa florida, gosta é dos animais, das cabras e dos coelhos e das couves, ela não está cá, não vale a pena falar com ela que ela não está cá.
pois parece que está sim! então quando se põe a cortar batatas desembrulha-se-lhe a língua e os dedos e é sempre a andar, venha outra saca de batatas, querida rosário-avó.
o senhor adelino corta as batatas muito fininho.
teve um acidente na coluna mas o que gosta é de trabalhar na terra. corta a pele da batata de uma só vez, diz que quem consegue descascar uma batata de uma casca inteira consegue governar uma casa.
caiu dentro de casa, escorregou na casa de banho. para semear, as batatas têm que ficar desviadas de palmo a palmo e aí com uns 4 dedos de profundidade.
ó senhor adelino vamos ali levantar as pedras da praça martim moniz e fazer uma grande horta, não acha bem? olhos azuis brilhantes, era bem bonito sim.
a sogra da amália lá do norte andava todo o ano na montanha por causa do contrabando, azeite pelo que eles traziam, sempre descalça, fazia tanto frio que tinha que fazer xixi para os pés para não congelarem.
passei muita fome muita fome muita fome. o meu irmão até teve que matar o filho bebé por não ter que lhe dar de comer. é como agora estes ladrões que nos tiram tudo e ainda dizem que o sacrifício é para todos, sabem lá o que é viver mal, sabem lá o que é não ter que comer, à outra dizem-lhe que ela precisava era de uma cadeira de rodas com as pernas como ela tem. mas e depois onde é que ela põe a cadeira naquela casa que nem tem espaço entre o colchão e a parede? e quem empurra a cadeira se o filho não faz nada, só lhe rouba o dinheiro da pensão que já é tão pequenina.
não tem hoje nem tem ontem nem dia seguinte, é momento a momento que as paisagens vão tomando formas. muito gosto de correr atrás dos coelhos. já vão dois alguidares de batatas e aquela a cantar “ceifeira que andas à calma” e o outro a ler que ele gosta de ouvir e os olhos não lêem já ou nunca leram…cada um a fazer o que está a fazer, não há urgência de um uníssono, vozes e silêncios amassam o espaço, fazemos aqui um bom cozinhado com isto tudo.
sei que sempre que chegamos ali há um colapso. alguma coisa tem que morrer para ser possível acontecer esta zzic tratra buiiiiii mmmmm sem ninguém se pôr a “achar” seja o que seja.
vou estar atenta a esse colapso, quero ouvir onde aparece o corpo e cai a casca do que pensamos ser, não vou fingir que não vejo.

sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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