intendente mente

14 de outubro largo do intendente, 6ª feira, estou no meio do largo sentada no chão, a fonte está envolvida em grades. preservar, preservar, como se preserva um canário numa gaiola. não sei se a fonte canta assim preservada. o meu corpo não quer roupa por perto, quer-se alargado. tenho uma fita na testa para respirar, deixo essa pele ver a luz do dia. ao menos a testa respira. também sou uma toxina, urina amarela escura, as rugas enroladas e pegajosas. sou uma aranha na muda. como o largo, obrigado a ser outro continua a ser o mesmo, brotando outro corpo. se há movimentação de ser antes de estar o estar já traz uma forma, o ser é informe, embrião. embrião embora adulto.
chega o inverno, o intendente enclausura-se, só se passa pelos bordos. torna-se impossível e continua a pulsar. as mulheres reconfiguram os trânsitos, a vida-morte insiste.continua-se a tratar a ferida sem abrir os olhos ao corpo, chega um penso e uma limpeza!
mesmo se a comunicação dos acontecimentos não fosse manipulada ainda tinhamos que atravessar o medo e a opacidade que ele cria, dificultando acreditar que não é só isso que o acontecimento vai sendo. não vejo o que vejo, não sinto o que sinto, tenho que atravessar os corpos evidentes!
se a arte é produtora de merdas que anestesiam o ver ou preenchem molduras que garantem almocinhos e jantarinhos luxuosos deveria assumir-se como tal!
arte-apatia ratazinica tingida elegantemente
arte-armadilha do real tramadora e escandalosa
arte-ampliação da ruptura tocada no encontro
e se fosse uma outra forma de deformação? se há encontro há deformação! vejo-me atravessar o estar e tocar o ser, reconheço o ser. os sinais que me indicam o caminho contornam-me o estar mas não me engano! são sinais! não são o movimento!
se reconheço o grito do pescoço não me armadilho na cura da dor, abro mais, amplio. não falar-falar são da mesma natureza se não me perder na passagem de mensagens. malditas mensagens! se precisamos tanto elas que vão numa garrafa para lugar nenhum!
É urgente que o homem se veja bicho, se veja pedra, se veja planta, se veja não homem!suspeito que esse homem-nãohomem será muito mais humano.

sofia

Sobre pedras2012

O Pedras d'Água é uma iniciativa do c-e-m centro em movimento (Lisboa -Portugal). Esta plataforma on line é um espaço para compartilhar a trajetória de todo o Programa Pedras d'Água '12, transitando entre documentações, imagens, escritos e outras formas que contemplamos para irmos levantando voo até planar sobre as criações e comunicações artísticas e outros acontecimentos que tomam corpo no Festival Pedras d'Água. em Julho próximo.

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